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Depois dos incêndios, cuidados para o futuro

Agência Ecclesia
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Nota dos Bispos das Dioceses do Centro

1. Já nos debruçamos, há alguns anos, sobre o problema dos incêndios na nossa região. Alguns bispos o fizerem, também, para o povo cristão das suas dioceses, em momentos de especial gravidade. Voltamos agora a fazê-lo, uma vez que, no passado verão, a população das nossas dioceses foi de novo atingida e martirizada pelos numerosos e violentos incêndios que assolaram o país. Para alguns lares foi a dolorosa perda de familiares. Estes e muitas outras famílias viram desaparecer, num momento, com as preocupações que uma tal situação comporta, as suas casas, os seus bens pessoais e os meios normais de subsistência, como são as suas florestas. Foram muitos e muito generosos os gestos de solidariedade que surgiram de todos os lados, mostrando assim a sensibilidade cristã do nosso povo que, em situações de calamidade e de dor, sabe acorrer, de imediato, em auxílio de quem precisa. Foi de salientar, ainda nestes casos, o abnegado esforço das populações, de corporações de bombeiros e de alguns grupos organizados. Estamos gratos, em nome dos nossos diocesanos, a quantos, de qualquer modo, com o seu apoio moral e material, ajudaram os mais atingidos pela tragédia, que tão de perto os tocou. 2. Um novo verão se aproxima e não podemos deixar de manifestar a nossa preocupação em relação ao futuro. Os incêndios não são um fatalismo. Sentimos, porém, que as desgraças depressa se esquecem, os novos cuidados podem retardar e as mentalidades de muitos, marcadas pela rotina, mudam vagarosamente. Acompanhamos, com atenção e interesse, pelos meios de comunicação social, os esforços que, a diversos níveis, se estão fazendo para prevenir futuras calamidades e remediar danos ocorridos. Sejam benvindos. As precauções desejadas e procuradas, têm de chegar a tempo, ser operativas e envolver, de modo responsável, os proprietários das florestas, os serviços do Estado com os seus técnicos e mais formas de apoio, as associações de bombeiros, as populações, as autarquias e outras instituições do meio. 3. Pela parte que nos toca, e está ao nosso alcance fazê-lo, queremos ajudar a motivar os proprietários das florestas para que se organizem com os seus vizinhos, se associem e juntem os seus saberes e preocupações e não deixem de seguir, para seu interesse e dos outros, as orientações superiores, nomeadamente no que se refere à limpeza das matas e à abertura de caminhos. Assim se poderá evitar ou minimizar o risco de novos incêndios. Há causas conhecidas e condições propícias aos incêndios, que se podem acautelar e precaver, em tempo próprio. É um dever fazê-lo sem demora. Às populações pedimos e recomendamos que estejam atentas e activas e prestem colaboração, pondo o seu saber e experiência à disposição daqueles que implementam medidas preventivas adequadas e, em caso de incêndio, coordenam as acções desejáveis e necessárias. O povo tem um conhecimento da região e da realidade local, fruto da vida e da experiência de todos os dias, que não pode ser dispensado por parte daqueles que vêm de fora, munidos de autoridade ou de saber técnico, mas muitas vezes com um deficiente conhecimento do local de actuação. Há, no campo específico dos incêndios a prevenir e a dominar, situações a resolver e problemas a solucionar, que ultrapassam a capacidade dos proprietários das florestas e das populações locais, e que se situam no âmbito da missão e da responsabilidade do Estado. A resposta de acções técnicas, meios adequados e medidas legislativas, compete aos poderes públicos, que não a podem retardar. Devem, por isso, sentir-se activos, tanto na prevenção adequada dos incêndios e de outras calamidades, como na resposta rápida, quando necessária, para responder e minimizar os efeitos, pessoais e materiais, das desgraças ocorridas. Queremos ainda recomendar aos párocos que esclareçam as populações e as incentivem a estar atentas e colaborantes. Esclareçam, também, a consciência dos fiéis, deixando bem clara a gravidade moral do acto de quem provoca, conscientemente, os incêndios ou de quem presta pouca atenção a hábitos e descuidos que lhes podem dar origem. Os párocos, os educadores e os meios de comunicação social empenhem-se na educação da gente nova para que se abra a esta dolorosa realidade. Recomendem a sua inscrição nas associações dos bombeiros locais e noutras que defendem o património em todas as suas expressões e riqueza, e ajudem-nos a adquirir, para a vida do dia a dia, hábitos mais consentâneos com a promoção dos valores morais, que lhes permitam uma vivência solidária e responsável em comunidade. 4. Temos consciência de que uma situação grave e complexa, como é a dos incêndios, na sua prevenção e na resposta necessária quando surge a calamidade, ninguém a resolve só por si ou tentando apenas defender as suas árvores e florestas e os seus haveres pessoais. Queremos, por isso mesmo, chamar a atenção para o pouco valor das atitudes isoladas. O individualismo é sempre pobre e empobrecedor e pode até tornar-se suicida e factor de perigo para os outros. As florestas, para além da riqueza económica que comportam, são um bem necessário à saúde de todos nós. Elas são a mancha verde sadia que nos envolve e alimenta e que nada nem ninguém pode substituir validamente. Prevenir os incêndios, promover a florestação e defender a floresta é contribuir para o bem das pessoas, das populações, do país e da humanidade. Bispos de Aveiro, Coimbra, Guarda, Leiria, Portalegre e Castelo Branco, Viseu Notícias relacionadas • Bispos do Centro alertam para o perigo de novo verão de inferno


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