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Dia do Nascituro

Agência Ecclesia
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Reflexão do Departamento da Pastoral Familiar do Patriarcado de Lisboa

“O Anjo do Senhor anunciou a Maria, e ela concebeu pelo poder do Espírito Santo.” Celebramos no dia 25 de Março a festa que recorda este dia. Precisamente nove meses antes do Natal, a Igreja celebra a festa da Incarnação do Verbo. “E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Para realçar a unidade entre esta festa e a certeza de que a vida de qualquer homem ou mulher começa no momento da concepção, o Papa no dia 25 de Março de 1995 publicou a Encíclica “O Evangelho da Vida”. Esta carta, que deverá ser lida e meditada por todos, recorda o carácter sagrada o inviolável da vida de cada ser humano, desde o início até ao seu termo natural. Denuncia todos os ataques a que a vida dos mais frágeis está sujeita e lança as bases de uma pastoral capaz de anunciar, celebrar e servir o Evangelho da vida. Aproveitando esta evidente relação em alguns países tem vindo a ser celebrado no dia 25 de Março o dia dos nascituros, os bébés ainda não nascidos. Atento a esse movimento o Departamento da Pastoral da Família propõe à Igreja da Diocese do Patriarcado de Lisboa que nos associemos a essa celebração a partir deste ano de 2004. Quando o Anjo apareceu a Maria, fazendo irromper naquela jovem de Nazaré a absoluta novidade do Plano de Deus, desde sempre escondido mas agora revelado (Col 1,26), ela disse eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a Vossa Palavra (Lc 1, 38). Desde esse instante, o Verbo eterno do Pai tornou-se humano, em tudo igual a nós excepto no pecado (Heb 4,15). Se o sim de Nossa Senhora permitiu a incarnação do Verbo, ele é um convite permanente a todos nós para dizer sim à vinda de Jesus, mas também para dizer sim a toda e qualquer vida humana. Na verdade, ao identificar-se com os mais pequenos – aquilo que fizerdes a um destes pequeninos a Mim o fizestes (Mt 25,40) – Jesus diz-nos que cada ser humano, por insignificante que pareça, é amado e tem um valor único para Deus, independentemente das circunstâncias em que tiver sido concebido. Nesta festa da Incarnação do Verbo de Deus, queremos cantar um hino de acção de graças ao Deus Vivo e dado de vida, queremos agradecer a vida de todos os homens e mulheres, vendo em cada um alguém amado e escolhido por Deus. Como muito recentemente o afirmaram os Bispos portugueses todo o homem sinceramente aberto à verdade e ao bem pode, pela luz da razão e com o secreto influxo da graça, chegar a reconhecer, na lei natural inscrita no coração, o valor sagrado da vida humana desde o seu início até ao seu termo. Todos são chamados a tutelar este direito, mas “de um modo particular, devem defendê-lo e promovê-lo os crentes em Cristo, conscientes daquela verdade maravilhosa, recordada pelo Concílio Vaticano II: «pela sua encarnação, Ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem» (GS 22). De facto, neste acontecimento da salvação, revela-se à humanidade não só o amor infinito de Deus que «amou de tal modo o mundo que lhe deu o Seu Filho único» (Jo 3, 16), mas também o valor incomparável de cada pessoa humana” (EV 2) A vida humana, desde o primeiro instante, é desejada e criada por Deus e é destinada à eternidade; por cada homem Deus morreu na cruz e ressuscitou; é missão urgente de todos nós, bispos, sacerdotes, famílias cristãs e de todos os fiéis, defender a vida dos mais débeis sempre que esta estiver ameaçada. Recentemente o Santo Padre dizia: “não podemos baixar os braços diante dos ataques à vida humana, o primeiro dos quais é o aborto. Exorto cada comunidade eclesial a apoiar as iniciativas e os serviços dos movimentos de apoio à vida. Multipliquem-se os esforços para que o direito à vida das crianças ainda não nascidas seja afirmado não contra as mães mas juntamente com as mães” (Angelus de 2/2/2004). Com a celebração do dia do nascituro, tornamos presentes todas as crianças que ainda não nasceram, lembramos as suas mães e os seus pais, e damos graças pela vida de cada um e por todo o amor com que a vida é acolhida. Ao mesmo tempo alertamos para que na nossa sociedade se criem todas as condições necessárias para que a vida seja compreendida sempre como um bem inviolável. Nesse sentido reafirmamos a condenação de todos os actos que directa ou indirectamente forem contra a vida e alimentarem uma «cultura da morte». Conscientes das muitas dificuldades que a cultura hodierna coloca, o Departamento da Pastoral Familiar faz eco dos ensinamentos do nosso Papa e do nosso Bispo e apela a que em todas as instâncias se defenda a vida ainda não nascida, ao mesmo tempo que pedimos a todos para que se faça um esforço educativo que ajude a nossa sociedade a compreender a sacralidade da vida, em particular das crianças não nascidas, sejam elas sãs ou enfermas, escorreitas ou deficientes, desejadas ou imprevistas e a ter um comportamento consequente, defendendo, protegendo e acolhendo o bem irrepetível que é cada ser humano. Sentimos ser particularmente urgente: 1. Tudo fazer para que o sistema jurídico assuma a sua missão de proteger a vida. Para isso, será importante rever as leis que tornam relativo o valor da vida permitindo o aborto, e contrariar activamente as iniciativas que pretendam liberalizar o aborto. 2. Apoiar as acções que ajudem a formação das consciências para serem capazes de distinguir o bem do mal, para se tornarem sensíveis ao valor da vida nascente e compreenderem a beleza da castidade e do amor verdadeiro. 3. Promover os valores da família, santuário da vida, reafirmando a importância da fidelidade e da vivência da sexualidade de acordo com a natureza humana. A mentalidade contraceptiva, como diz o Papa, que embora seja um mal diferente do aborto é sempre um mal moral, separa os caracteres unitivo e procriativo do acto conjugal e arrisca-se a levar a um estilo de vida egoísta e fechado à nova vida. Formar os jovens e os casais para a vivência de uma sexualidade concordante com as normas morais, será, seguramente, um contributo decisivo para a construção da civilização do amor e da vida. Neste dia procuramos ainda evocar o esforço de tantos que continuam a promover a cultura da vida: nas paróquias, em movimentos eclesiais, nas obras que acolhem crianças e mães grávidas. Mas também os médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde que ajudam realmente a cuidar da vida; aqueles que publicamente na comunicação social afirmam estes princípios e a todos os que na política se têm batido para que haja uma efectiva protecção da vida. O Senhor da Vida, que se fez homem por amor de cada um de nós, acolhe no Seu coração todas as acções que forem realizadas em favor da vida. Ao propormos celebrar o Dia do Nascituro queremos reafirmar o nosso empenho em anunciar, celebrar e servir o Evangelho da Vida. Se é verdade que não é necessário a fé para se reconhecer o valor da vida, pois isso é acessível a todos os homens no recto uso da razão, é importante que os cristãos, pela especial ajuda da revelação, se sintam chamados a uma acção destemida e constante em prol dos mais desprotegidos. O Sim de Nossa Senhora sirva de leme que nos conduz a Cristo, Caminho, Verdade e Vida e possa tornar-se na força do amor que acolhe sempre a vida. Lisboa, 25 de Março de 2004


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