Entrevistas

A Igreja em Portugal no caminho da cultura

Octávio Carmo
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D. Manuel Clemente, Bispo auxiliar de Lisboa, é o presidente da recém-criada Comissão Episcopal para a Cultura, um mundo cheio de potencialidades e desafios para a Igreja em Portugal, como revela em entrevista à Agência ECCLESIA

Agência ECCLESIA – Porque se sentiu a necessidade criar uma Comissão Episcopal para a Cultura? D. Manuel Clemente – Para a Conferência Episcopal Portuguesa é evidente que a cultura é mais do que uma actividade específica. Esta nova comissão episcopal surge porque a cultura é uma dimensão da actividade em geral, algo de prévio e envolvente à actividade específica de cada sector. Neste sentido, a nossa actividade não se confunde com o trabalho de outras comissões, como a da educação cristã ou dos bens patrimoniais da Igreja. De certa maneira, esta comissão existe para activar na Igreja a atenção para a realidade cultural no sentido das mentalidades, das ideias das sensibilidades, dos gostos das preferências, de tudo aquilo que mexe com as pessoas, num sentido mais amplo e mais vasto do que aquele que a palavra ganhou. Existimos, portanto, em função das outras comissões, para que tenham relevância cultural, em atenção às mentalidades dominantes no meio para não correr o risco de estar a dar respostas a perguntas que ninguém fez e acertar ao lado das grandes questões. AE – A nova Comissão pretende cativar para as causas da Igreja os agentes culturais mais destacados da nossa sociedade? MC – Nós queremos criar um meio onde as pessoas possam encontrar ocasiões para reunir-se e estar umas com as outras. Queremos proporcionar aos criativos e àqueles que reproduzem a cultura – porque ela tem uma grande dimensão de transmissão – caminhos comuns. AE – E que percurso já foi feito nesse caminho? MC – Nós estamos a começar, através de um grupo de trabalho, por fazer um levantamento das iniciativas e instituições culturais da Igreja. Para já estamos a ficar surpreendidos com o que já há: na área da música, por exemplo, há dezenas de iniciativas que não são esporádicas, nas 20 Dioceses do país. A partir deste levantamento queremos criar uma base de dados e depois, quando tivermos uma ideia da qualidade e quantidade destas realidade, promover encontros sectoriais nas diversas especialidades. As pessoas que já estão no terreno são a nossa rampa de lançamento para perspectivar os caminhos de futuro. AE – A actual composição da Comissão (além de D. Manuel Clemente, integra D. Manuel Felício, Bispo auxiliar de Lisboa, D. António Marto, Bispo auxiliar de Braga e o Pe. Tolentino de Mendonça) pode ajudar nesses objectivos? MC – Os três Bispos estão ligados ao meio universitário, que é um dos laboratórios mais constantes da cultura, e são pessoas ligadas à vida das Dioceses, não estão fora da vida eclesial. O secretário, Pe. Tolentino Mendonça, é um homem que está dentro do meio cultural português e da sua intelectualidade, junto de crentes e não-crentes. O grupo de trabalho tem mais pessoas a colaborar e parece que estamos num caminho com futuro. Há poucos dias estive numa reunião das várias comissões episcopais da cultura da Europa e tive oportunidade de constatar que a nossa opção é bem acolhida pelos outros, até porque não queremos cair numa visão elitista. AE – A nível de estruturas e capacidade de mobilização a Igreja Católica tem uma capacidade sem comparação em Portugal. Essa realidade pode criar agentes culturais? MC – Estamos a falar, de facto, de excelentes pontos de partida para a criação de realidades culturais, porque num sentido mais vasto da palavra – que é o de encontrar pessoas, com uma mensagem que tem uma enorme relevância como despertador de ideias e comportamentos – o maior acto cultural da Igreja é reunir 25% da população todas as semanas, mais o outro tanto que aparece episodicamente, nos ciclos festivos. Queremos, sobretudo, potenciar e criar a consciência da dimensão cultural que toda esta actividade deve ter, indo ao encontro daquilo que a sociedade de hoje e amanhã mais anseia.


Comissão Episcopal da Cultura