Esteve dois anos nas missões e actualmente é o Presidente da Comissão Episcopal da Missões. Referimo-nos a D. Manuel Quintas que considera as novas tecnologias uma
Agência ECCLESIA – O conceito «Missão» tem tido a mesma definição ao longo dos tempos?
D. Manuel Quintas – A missão é sempre a mesma porque a sua origem está em Cristo. E Papa é explícito ao afirmar que o programa pastoral da Igreja é sempre o mesmo (ontem, hoje e sempre). Um programa de anúncio da pessoa de Cristo.
AE – Mas, actualmente a dimensão missionária é diferente?
MQ – Os destinatários, as condições em que se anuncia a mensagem de Cristo e os meios utilizados é que são diferentes. A novidade está aí porque o conteúdo da mensagem permanece o mesmo, aliás é essa a essência da missão e vocação da Igreja. Tal como diz João Paulo II: evangelizar é e será sempre a vocação própria da Igreja. A sua identidade mais profunda.
AE – Uma evangelização à escala mundial?
MQ – Sim. Em todo o mundo porque foi a ordem de Cristo. Ele disse-nos: “Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho”.
AE – Mas quando falamos em Missão associamos ao continente africano.
MQ – É uma questão cultural. Da cultura portuguesa devido à nossa história (do país e da Igreja) porque quando falamos em missões pensamos logo nos países de expressão portuguesa.
AE – Com a Europa tão perto?
MQ – Nos dias de hoje não acontece assim. Actualmente, o termo «missão» estende-se a todos os homens e lugares. E no continente europeu falamos de uma «Nova Evangelização» que é nova, sobretudo, nos métodos porque o conteúdo é o mesmo de sempre: o Evangelho da Esperança.
AE – Um Evangelho que é necessário celebrar mas com o apoio dos leigos.
MQ – Quando falamos em missão da Igreja entendemo-la, necessariamente, como o Povo de Deus. O dever da missão é de todos.
AE – Outrora eram poucos os leigos que partiam para a missão?
MQ – Sim. Presentemente este é um dado novo.
AE – Porquê?
MQ – Pela redescoberta dos leigos em relação ao seu dever e missão de anunciar o Evangelho.
AE – E também porque há falta de padres?
MQ – Pode ser também por isso. Mas é um aspecto positivo: a falta de clero leva os cristãos a despertarem para a missão.
AE – Nesse prisma os leigos estão num papel secundário.
MQ – Nos dias de hoje, aqueles que partem para as missões vão porque têm consciência do Baptismo. Não partem porque há falta de padres.
AE – Vivemos numa sociedade global onde as novas tecnologias predominam. Estas são aproveitadas para espalhar o Evangelho?
MQ – Pelo menos são uma riqueza nos dias de hoje. Aliás, João Paulo II refere isso mesmo: “em época alguma a Igreja teve tantas possibilidades de anunciar o Evangelho como hoje”. Precisamente devido aos meios de comunicação.
AE – Anunciar o Evangelho electronicamente.
MQ – Parece que, muitas vezes, descuramos isso. Mas temos possibilidades incríveis. Os meios de Comunicação Social e a Internet são uma mais valia para o anúncio.
AE – Foi missionário durante alguns tempos. É uma etapa da vida que marca as pessoas?
MQ – Estive dois anos e marcou-me profundamente. Abre-se uma outra perspectiva da Igreja. É um bem incalculável.
AE – Sentiu-se um cristão no meio dos gentios?
MQ – Não. Senti-me um cristão no meio de cristãos. Embora fosse o primeiro contacto com um número de pessoas que ainda não conheciam Cristo.
AE – Existe uma relação íntima entre missão e perigo?
MQ – Sim. Sobretudo devido há instabilidade dos novos países. Sem esquecer também a atrocidade do clima porque os europeus não são feitos para viver em países africanos. Recordo que morreram muitas dezenas de missionários...
AE – Os europeus foram para África mas daqui a alguns anos será o inverso?
MQ – Não é preciso esperar muito. Já temos padres africanos a trabalhar nas nossas dioceses. A Igreja é missionária não só quando vão padres ou leigos para a África mas quando sucede o inverso. A Igreja é toda ela missionária no sentido que envia... Há muitas dioceses no mundo que enviam e precisam de clero.
AE – Pelas viagens que fez, João Paulo II foi um verdadeiro missionário.
MQ – Sentia-se um missionário itinerante. As viagens dele são um espelho daquilo que a Igreja deve ser no sentido de realizar a sua própria missão.
AE – Como é vivido o Outubro missionário em Portugal?
MQ – Temos feito um grande esforço de sensibilização e mobilização de todas as comunidades cristãs. É um despertar para aquilo que é uma exigência do ser cristão. Com a publicação do «Guião Missionário» penso que ajudamos a viver melhor este mês e os restantes meses do ano porque o último capítulo é dedicado à missão de Novembro a Setembro.
AE – Para evitar que os restantes meses não esqueçam esta dimensão?
MQ – A Igreja tem de ser missionária todo o ano.