Entrevistas

Trabalhos na Educação Cristã

Octávio Carmo
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O Pe. Querubim Silva esteve à frente do Secretariado Nacional da Educação Cristã de 1997 a 2003 e lança uma série de alertas sobre os avanços e retrocessos do trabalho neste sector da vida da Igreja em Portugal

Agência Ecclesia – Qual é a situação actual do ensino religioso na escola pública? Pe. Querubim Silva – A disciplina de EMRC tem estatuto para o 2º e 3º ciclo e para o ensino secundário desde 1989, definido com clareza. O que podemos dizer é que o Ministério falhou, enquanto parceiro coerente, no desenvolvimento de uma disciplina que servisse de alternativa à Educação Moral e Religiosa Católica, porque escolher entre esta ou ficar mais uma hora na rua a brincar não me parece muito justo... A luta foi sempre a valorização dos professores, qualificando-os, e o desenvolvimento da disciplina de forma a motivar os alunos e as família à adesão. O Fórum sobre Cultura e Fé começou a lançar este problema da EMRC e em 2001 o 1º Congresso dos professores da disciplina foram momentos marcantes nesta luta. Posso dizer que apesar de alguma marginalização, manteve-se uma percentagem de alunos ligeiramente crescente, perto ou acima dos 50% - mesmo quando a disciplina não conta para as médias. Outra área é a do 1º ciclo e aí a luta foi, de certa maneira inglória, porque se nota claramente a hostilidade do jacobinismo em relação à Igreja. Gostaria mesmo de ter debatido na Assembleia esta questão. AE – Quais são os responsáveis por esse impasse? QS – As mais altas instâncias, que querem, em nome de uma laicidade do Estado, criar condições de gerar uma sociedade laica, promovendo uma educação militante – apagando a leitura religiosa da vida e da história. Toda a instância governativa, desde a presidência da República até ao Governo, alterou legislação sem revogar a anterior, lançando a confusão nos gestores das escolas. O decreto de lei 6/2001 incluía a disciplina de EMRC como uma espécie de actividade de enriquecimento e, em Outubro do ano passado, numa marcha-atrás incompreensível, sob pressão de interesses específicos e da presidência da República, surge a 26ª hora para aí colocar a disciplina. Cada um faz um pouco conforme entende, com graves consequências para milhares de alunos. Tem havido, apesar de tudo, um diálogo satisfatório, de modo a fazer perceber os atropelos que têm sido feitos ao legítimo direito de escolha dos pais em relação ao quadro de valores educativos para os seus filhos e à obrigação do Governo em respeitar essa liberdade de escolha. Estou convencido que a reorganização do 1º ciclo permitirá mudar o estado das coisas num futuro próximo. AE – O Estado confunde catequese e ensino religioso? QS – O trabalho que foi feito só deixa dúvidas em quem tiver má vontade: às vezes os próprios pais, outras vezes agentes pastorais e párocos que quando têm a catequese cheia não se preocupam com a pastoral escolar – e são duas coisas distintas. Alguns acontecimentos nacionais e documentos publicados deixaram bem claro que a catequese é um itinerário de comunicação da mensagem cristã como vida para uma adesão a Jesus, a EMRC é uma leitura da vida e do mundo à luz dos valores cristãos em conjugação com os outros saberes, para fomentar uma matriz cultural com valores cristãos e isso é completamente distinto. O problema, porém, parece-me surgir da atitude da Igreja que dormiu à sombra da convicção de que os professores do 1º ciclo continuariam a leccionar a disciplina de EMRC, o que já não é verdade: seja por falta de convicções ou por receio da hostilidade dos outros, omitem esse trabalho. O sector não está em extinção, como alguns supõem, e algumas coisas vão ter de se assumir publicamente, porque são direitos assumidos. Mesmo os professores da disciplina deveriam avançar para uma associação que seria muito útil no diálogo institucional. Do lado da Comissão Episcopal da Educação Cristã seria útil, também combater uma certa lentidão e prever formas de actuação com alguém mais liberto para que a agenda dos senhores Bispos possa estar mais perto da agenda da vida educacional. A ESCOLA CATÓLICA AE – A questão da Escola Católica também tem contornos muito particulares em Portugal. Como tem sido o trabalho nesta área? QS – Aqui trata-se de pensar a liberdade de ensino, porque somos dos países mais totalitários do ponto de vista do sistema de ensino e dos menos democráticos: mesmo concedendo o contrato de associação a colégios, católicos ou não, a verdade é que tem havido um conjunto de estruturas – desde os aparelhos sindicais à rede escolar pública – que estrangulam a hipótese de uma escolha diferente e isso viola direitos fundamentais. Felizmente há, nesta altura, movimentos já na Praça Pública, numa luta dura, em relação à liberdade de ensino, onde a escola católica se situa. AE – As dificuldades, porém, parecem ser cada vez mais para a Escola Católica? QS – A questão é esta: há uma diminuição demográfica, de modo que o sistema de ensino público – desde estruturas físicas a administrativas - o Ministérios tem sobrecargas para as quais tem de reservar clientelas. Penso que da parte das escolas privadas é precisa, também, uma alteração de posição, para que se situem na perspectiva do serviço público, mesmo que sejam de iniciativa particular, em vez de se assumirem como uma fonte de rendimento ou uma possibilidade de elites. A CATEQUESE AE – Qual foi o maior feito do SNEC nestes 6 anos no que diz respeito à catequese? QS – Olhe, folheando a documentação para a passagem de testemunho, verifiquei que já lá se fala da revisão dos catecismos. A preocupação de nesta área transmitir conteúdos verdadeiramente ortodoxos, claros e seguros, às vezes emperra a necessidade de uma apresentação em linguagens novas da mensagem cristã, pelo que os catecismos são apresentadas como uma realidade fechada. O grande esforço que se fez neste tempo foi conceber que a segurança da doutrina não implica que os catecismos seja fechados – para periodicamente haver elementos novos que sejam proporcionados. A revisão dos catecismos está em marcha e prevê-se para muito em breve, com alterações na distribuição das fases e 4 catecismos novos que estão a aparecer. A par com este trabalho foi feita formação de catequistas, com materiais que se estão a ultimar, mas não pode ser o SNEC a fazer todo o trabalho. A necessidade de uma formação cristã de jovens foi outro ponto em destaque, com boas perspectivas, bem como a catequese de adultos, que a breve prazo terá um itinerário definido. Lateralmente levanta-se a questão do catecumenato, onde se está a trabalhar e algumas dioceses têm directórios próprios.


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