Entrevistas

Voar mais alto até Santiago de Compostela

Luís Filipe Santos
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D. Manuel Monteiro de Castro, Núncio Apostólico em Madrid, fala sobre o «Ano Jacobeo» e a adesão dos jovens aos valores espirituais porque Santiago de Compostela

Agência ECCLESIA – Como é que a Igreja espanhola está e irá viver este «Ano Jacobeo»? D. Monteiro de Castro – A finalidade deste ano jubilar é levar júbilo e alegria a todos os cristãos. Uma alegria oriunda do sentido profundo do ano jubilar. Com diversos ritos - entrada da Porta Santa, Bota Fumeiro, Abraço ao Apóstolo e cruzar o umbral da Porta da Glória – este acontecimento é fundamental para os cristãos. Este «encontro com o Senhor» é sumamente importante em todos os períodos da história e talvez mais no nosso tempo. Quando olhamos para o mundo europeu de hoje encontramos muita gente insatisfeita e jovens com tantas dificuldades. Não conseguem encontrar o caminho da vida por isso a caminhada a Santiago de Compostela convida-nos a remar. Em relação ao Rito do Bota Fumeiro, nunca encontrei nada parecido nos outros continentes. AE – Um rito característico deste santuário? MC - Sim. Um turíbulo enorme que gira e é empurrado por diversas pessoas. Algo impressionante mas com sentido espiritual. Depois de entrar na Porta Santa e encontrar-se com Cristo, o incenso queimado no turíbulo significa purificação. AE – Uma das características deste ano jubilar são as peregrinações frequentes? MC – Há peregrinações organizadas de todos os tipos. Inclusivamente, os Bispos da Europa têm uma peregrinação programada para a semana depois da Páscoa. Teremos peregrinações de jovens, movimentos da Acção Católica, jornalistas e até artistas. AE – Todas as regiões espanholas estão mobilizadas para, ao longo do ano, irem a Santiago de Compostela? MC – Não só de Espanha mas de toda a Europa. Pessoas que vêm pelo caminho francês, caminho do norte de Espanha, o caminho da Via da Prata (de Sevilha) e o caminho do Porto. AE – Depois de um certo esquecimento, o fenómeno das peregrinações voltou novamente? MC – É verdade. Nota-se sobretudo nos jovens: Eu fico muito impressionado com os jovens estudantes universitários. AE – É a insatisfação com o mundo contemporâneo que leva os jovens aos santuários? MC – Suponho que os jovens aperceberam-se que temos de voar mais alto porque os valores que nos dá o mundo de hoje não satisfazem. O homem contemporâneo encontrou um desejo de querer mais. E cito alguns exemplos: arte, música, dinheiro, poder e o prazer. É o desejo profundo do infinito... diria de Deus. É algo impressionante esta caminhada em busca de Deus. Temos jovens que vão daqui (Madrid) a pé a Santiago de Compostela. Muitas vezes encontramos na imprensa só o que é negativo mas na juventude de hoje temos gente muito bem preparada e disposta a trabalhar para o bem comum com um espírito que não tem nada de egoísmo. AE – Excluindo os santuários marianos, o Santuário de Santiago de Compostela é o maior? MC – Eu pensaria primeiro na Basílica de S. Pedro, em Roma. Depois deste, penso que é o maior. AE – Esta grandiosidade deve-se também à recuperação de muitos caminhos de Santiago? MC – É bom que as autoridades ajudem a fomentar os valores que, realmente, nos levam pelo bom caminho. A tentação do facilitismo conduzem as pessoas pelo pior caminho. Este esforço feito pelos valores espirituais é sempre louvável. AE – Que mensagem gostaria de deixar aos portugueses que se deslocarão a Santiago de Compostela? MC – Que sintam profundamente os quatro ritos citados anteriormente. Depois, na volta, divulguem estes valores ao mundo. Temos de fazer o impossível para que a família europeia cresça. Primeiro como comunidade em família e depois como Europa. Este continente está a dar passos muito bons, sobretudo nestes últimos 50 anos, porque se tem unido. AE – Mas nem tudo é concórdia no seio europeu e da família? MC - A família depende de todos nós. A Igreja é chamada a colaborar. As autoridades não apreciam o valor do ser. Só se valoriza o que se paga. AE – Neste caso a Igreja é a ponte entre as duas realidades? MC – Sempre foi e continuará a ser. Se analisarmos a História vemos que as escolas nasceram à sombra da Igreja. Aqui não havia interesses económicos só pretendemos ajudar as pessoas a crescer.


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