A cidade que nasceu de um terramoto Agência Ecclesia 31 de Outubro de 2005, às 20:09 ... Tudo começou a 1 de Novembro de 1755 O dia 1 de Novembro de 1755 ficou gravado na História de Lisboa e do mundo pelo violento sismo, seguido de maremoto, que destruiu a cidade e fez milhares de vÃtimas. 250 anos depois, é impossÃvel não evocar um acontecimento que mudou o rosto e, pode-se dizer, a alma da capital portuguesa. Aos três abalos que se sucederam em menos de dez minutos seguiu-se um “maremoto†e um incêndio que se prolongou por cinco ou seis dias, com efeitos mais devastadores do que o próprio terramoto. Apenas três dias após a catástrofe, o núncio Filippo Acciaiuoli envia uma carta ao seu irmão, no Vaticano, da “desolada terra que na passada sexta-feira era Lisboaâ€. Se os efeitos fÃsicos do cataclismo atingiram quase toda a Europa, a discussão filosófica e intelectual que se seguiu teve consequências mais duradouras, envolvendo pensadores como Voltaire, que escreveu, sobre o tema, “O Poema sobre o Desastre de Lisboa†e “Cândido ou o Optimismoâ€, Rousseau, Ribeiro Sanches, e Kant. Teologicamente discutia-se sobre a “culpabilidade particular das vÃtimasâ€, sobre as causas fÃsicas e sobre a causa do mal moral. Deus, infinitamente bom, permite o mal por respeito à liberdade da sua criatura e, misteriosamente, sabe tirar dele o bem. A Europa saÃa do seu comodismo e enfrentava a tragédia, “o despertar de um sentimento de insegurançaâ€, como explica ao programa Ecclesia D. Manuel Clemente, especialista em História da Igreja: os filósofos fixavam o seu olhar sobre a incapacidade de fazer face a esta adversidade e, numa outra perspectiva, na esperança de mudança que eclodia desta catástrofe, que obrgiou a Europa a questionar-se sobre sistemas filosóficos assentes num optimismo demasiado ingénuo e mesmo sobre a bondade de Deus. Voltaire contrasta a tragédia de Lisboa com a opinião optimista que vinha do inÃcio desse século, de que se vivia no “melhor dos mundos possÃveisâ€, como defendia Leibniz. Agora, põe-se em causa essa convicção e Voltaire escreve mesmo: “Tudo estará bem, um dia: eis a nossa esperança; tudo está bem, hoje, eis a nossa ilusãoâ€. Rousseau, por outro lado, defendia que era necessário voltar a um “Estado natural†do homem, pré-civilizacional, “em que o homem, de algum modo, se resgatasse dos males que a civilização lhe tinha trazidoâ€, lembra D. Manuel Clemente. Neste contexto, a Baixa Pombalina apresenta-se como um modelo da†reconstrução iluminadaâ€, pretendendo ser a afirmação da capacidade racional do Homem contra a adversidade. As igrejas submeteram-se a este plano e foram edificadas em locais “apropriados ao projecto geral da cidade†e não necessariamente no mesmo local em que se encontravam antes. Apesar de terem uma decoração mais ricas do que os outros edifÃcios, nenhuma das igrejas pombalinas tem torres... D. Manuel Clemente lança um desafio ao olhar: “a Lisboa que tinha sobrado da Idade Média era uma cidade de vielas, paralelas ao Tejo. Hoje temos um exemplo de uma cidade feita de novo sobre as ruÃnas da antigaâ€. “Quando chegamos, agora, à Baixa pombalina, olhamos para as suas igrejas e reparamos que elas estão perfeitamente alinhadas com as novas ruas que se abriram – e não era ali que elas tinham estado antes. Todas elas foram construÃdas de novo, muitas delas foram do seu sÃtio original, e não se destacam muito do conjunto da arquitecturaâ€, assinala. Para D. Manuel Clemente, há ainda um outro facto muito significativo: “A Lisboa nova não tem uma Catedral nova nem um Palácio novoâ€. “Todas as grandes cidades do século XVIII tinham a sua Catedral nova, mas a Lisboa pombalina não a tem: o novo estilo de cidade nem é tão sacral, nem é tão régio como as outras cidades – é uma outra mentalidade, comercial, mercantil, burguesaâ€, acrescenta. Em memória das vÃtimas de então, e pensando em todas as vÃtimas de catástrofes naturais, o Cardeal-Patriarca de Lisboa endereçou uma carta ao Clero de Lisboa, propondo que nas Igrejas da Diocese, de modo particular nas da cidade, se evoque esta data em sentido de prece e de comunhão com todos os que sofrem. À Celebração da Missa, à s 9h30m, hora do terramoto, pelo Cardeal-Patriarca nas RuÃnas do Convento do Carmo, juntou-se o pedido de que os sinos das igrejas toquem a essa hora, “exprimindo, com o seu som, a memória de toda uma Cidadeâ€. Outras iniciativas “Lisboa antes do terramoto de 1755†e “O Terramoto cultural Pombalino†são os temas de duas conferências promovidas pelo Centro Cultural de Lisboa Pedro Hispano, a realizar dia 31 de Outubro e 2 de Novembro respectivamente e que terão como oradores Pedro Picoito e José Eduardo Franco. No dia 1 de Novembro, Dia de Todos os Santos, nos 250 anos do terramoto, haverá na Igreja da Madalena, à s 16 horas, um concerto e apresentação do restauro em curso na Igreja da Madalena. Três horas depois, na Igreja de S. Nicolau, D. Manuel Clemente, Bispo auxiliar de Lisboa celebrará a Eucaristia e haverá a apresentação da nova fase do restauro na Igreja de S. Nicolau. No dia 2 de Novembro, Dia de Fiéis Defuntos, na Igreja da Encarnação haverá um concerto Requiem de Mozart. Dia 5 de Novembro, na Igreja da Conceição Velha haverá uma missa na inauguração do restauro da capela-mor da Igreja da Conceição Velha. Às 21h 30 do mesmo dia será a Inauguração do restauro da BasÃlica dos Mártires e apresentação da Missa inédita de Nossa Senhora dos Mártires, composta por João José Baldi, pela Capela de Santa Cruz (coro e orquestra). O programa para assinalar os 250 anos da catástrofe inclui ainda iniciativas como o lançamento de livros, debates, colóquios, exposições, missas, visitas guiadas e “ateliers†dedicados à s crianças, famÃlias e escolas, que se prolongam até ao próximo ano. No Programa Ecclesia No programa Ecclesia, D. Manuel Clemente recorda o terramoto de Lisboa, na rubrica em antena em cada quinta-feira “O Passado do Presenteâ€. A partir do dia 3, próxima quinta-feira, e durante seis semanas, o Bispo Auxiliar de Lisboa recorda a história, o que aconteceu há 250 anos e o modelo de construção de uma nova cidade adoptado. As consquências filosóficas do acontecimento e o novo enquadramento do elemento religioso, na sua definição territorial e vivencial são abordados com especial relevo. Diocese de Lisboa Share on Facebook Share on Twitter Share on Google+ ...