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Arcebispo de Braga pede pastoral atenta às causas das misérias sociais

Diário do Minho
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O Arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, chamou ontem a atenção para a importância de se investir numa pastoral social que consiga solucionar as causas das misérias. O prelado falava na eucaristia que encerrou o programa comemorativo dos 200 anos da morte de D. Frei Caetano Brandão, que esteve à frente da Arquidiocese de Braga entre 1789 e 1805. De acordo com o prelado, o tempo de Advento e Natal reclama «um olhar sereno sobre muitas situações familiares anómalas. Não é suficiente uma noite onde nada falta ou, quem sabe, até abunda. A vida é feita para todos e em todos os dias». Por isso, «urge situar-se no realismo das nossas famílias e investir numa pastoral social capaz de resolver as causas das misérias». Referindo que «não faltam oportunistas que vivem à custa dos outros refugiando-se em subterfúgios de maior ou menor habilidade », D. Jorge Ortiga disse que «se importa dar, é indispensável ajudar a pensar a vida, mostrar a exigência do trabalho que se encontra quando é procurado, apontar caminhos de recuperação humana e deixar palavras de esperança, na vontade de mudar muita coisa nos comportamentos diários ». «Sei que a pobreza tem muitos nomes e a miséria material é consequência de muitos outros factores». É nestes campos «que a Igreja e a sociedade deveriam investir », disse, defendendo que «nem sempre a solução estará no dar» e «muitas vezes está no exigir». Com a aproximação do Natal, «gostaria» que este momento «fosse festa para todas as famílias e que estas se empenhassem, com esperança, em construir um futuro de alegria». D. Jorge Ortiga mostrou-se «preocupado com o desemprego », que «alastra em estatísticas alarmantes» e que traz consigo «muita miséria. E são sempre os mais pobres aqueles que não conseguem encontrar outros caminhos». Sabendo-se «que Deus é família e que o mundo deve ser uma única família», as paróquias devem «criar condições para que todos os lares sejam de encanto e dignidade». A missa, celebrada, na Sé de Braga, exactamente 200 anos depois de D. Frei Caetano Brandão ter sido sepultado, contou com a participação de elementos da comunidade educativa do Colégio de S. Caetano, que dinamizaram diversos momentos, e dos seminaristas do Seminário Conciliar, que animaram musicalmente a celebração. No final da eucaristia, teve lugar uma romagem ao túmulo de D. Frei Caetano Brandão, localizado na capela da Senhora da Piedade. Na ocasião, o Deão do Cabido da Sé, cónego Pio Gonçalo Alves de Sousa, disse que a coroa de flores aí colocada «significa a homenagem de todos, uma prece e uma súplica, para que nos ajude a saber ver na nossa sociedade as novas pobrezas e gestos que temos que encontrar». Em sua opinião, «a pobreza continua a ser gritante». “Pai dos pobres” De acordo com D. Jorge Ortiga, o exemplo de D. Frei Caetano Brandão, o Arcebispo que a Misericórdia de Braga apelida de “Pai dos Pobres” devido às preocupações que manifestou com as condições de vida da população, «deve continuar vivo como estímulo ao valor indestrutível de um amor vivido e concretizado numa opção preferencial pelos pobres». «Ainda hoje, deveríamos aceitar a sua vida como testemunho eloquente da importância e da força da caridade». «A caridade é essencial para a Igreja e deve» anteceder o seu agir. «Sem caridade não há Igreja e a esperança desvanece-se fazendo com que a fé perca significado. Tudo é vazio sem o amor». Segundo o Arcebispo de Braga, é importante «entender a caridade», que se concretiza «em acções realizadas em favor dos outros, mas é mais do que isso». Em sua opinião, devemos aprofundar «a consciência de que a primeira missão do cristão está em ser sinal e instrumento de Jesus Cristo, do Seu amor pelo mundo, ou seja, do Seu serviço em favor de toda a humanidade. Por outro lado, o amor do cristão tem de ser interpretado como um amor a Cristo. Ele encontra-se em qualquer ser humano que tem necessidade de ajuda, de conforto, de compaixão, de paz, de tranquilidade». De acordo com o prelado, as nossas preferências devem ir para «aqueles que estão privados do essencial: saúde, casa, trabalho, salário familiar, acesso à cultura». «Em Igreja tornamo-nos credíveis quando conseguimos servir e libertar os últimos da opressão de variadíssimos factores de índole política, económica, ideológica, social». Seguindo as pegadas de D. Frei Caetano Brandão, temos de continuar a interpretar diariamente a parábola do Bom Samaritano, que exige que nos coloquemos a caminho, entremos nas casas, nos encontremos com as pessoas sem pão, trabalho, saúde, liberdade e alegria e nos apercebamos dos problemas, «autênticos desafios que não podem deixar-nos tranquilos». Além disso, é preciso ter «coragem de parar, de fazer-se próximo de quem sofre, oferecendo o calor da presença humana e assumindo os encargos que o sofrimento poderá exigir», e «envolver outras instituições. Hoje temos de encaminhar para estruturas que existem para dar respostas. A comunidade faz o que pode. Há outras instituições que devem assumir as suas responsabilidades. Só em complementaridade conseguimos uma sociedade mais justa».


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