Portugal também celebrou o dia em que o ecumenismo se tornou operacional
Mais de 150 mil cristãos de 33 países europeus participaram no dia 8 de Maio, em 151 cidades de todo o continente, na jornada ecuménica "Juntos Pela Europa". Ao mesmo tempo que celebravam o alargamento da União Europeia (UE) os participantes, ligados via satélite, pretendiam afirmar o seu sonho de uma Europa unida que seja uma referência de paz e solidariedade aberta ao mundo
Os católicos, protestantes, anglicanos e ortodoxos reunidos por todo o Continente ouviram uma mensagem de João Paulo II onde se referia que o Evangelho “não é só uma riqueza do passado da Europa, é também uma ajuda para o presente e o futuro”. As palavras do Papa foram lidas pelo arcebispo Stanislaw Rylko, presidente do Conselho Pontifício para os Leigos.
Falando das raízes cristãs da Europa, João Paulo II sublinhou que a Europa não pode pensar apenas em si mesma e limitar-se ao seu bem-estar dentro das suas fronteiras, sendo “chamada a servir o mundo, em particular as suas regiões mais pobres e esquecidas, como a África”. Coincidência ou não, além dos países e cidades da Europa, a iniciativa foi acolhida também, nos restantes continentes, em mais 45 cidades de 33 países.
Ao programar a jornada, as 175 comunidades organizadoras desejavam contribuir para "dar uma alma à construção da nova Europa unida na diversidade", que se torne capaz de realizar a sua "vocação universal de paz entre os povos". O comunicado final do encontro reafirma essa intenção de fazer da Europa um espaço de fraternidade.
“Nós, reunidos em Estugarda e nos encontros simultâneos em mais de 150 cidades do nosso Continente, queremos trabalhar, ao lado de todos os homens e mulheres de boa vontade, por uma Europa que seja espaço de amor e de fraternidade, que tenha consciência das suas responsabilidades e que se demonstre aberta ao mundo inteiro”, declararam os participantes no “Juntos pela Europa”.
O presidente da Comissão Europeia, Romano Prodi, afirmou numa mensagem dirigida aos participantes que, perante o terrorismo, a guerra e a pobreza, a UE deve ser capaz de promover novas parcerias com o Sul do mundo, a Rússia, a África e a China. Acrescentou ainda que "a resposta ao terrorismo não está na guerra, que aliás o multiplica, mas na democracia, na solidez das instituições que sabem secar as raízes do ódio".
Através de dois pontos de encontro, um em Lisboa e outro no Porto, Portugal esteve em sintonia com mensagens e imagens de Estugarda: viam e ouviam via satélite a par de uma programa que contou com intervenções no local.
A pertença a diferentes movimentos eclesiais (Focolares, Santo Egídio, Schonestatt, nomeadamente) e a convicção do papel dos leigos na construção europeia são características de quem estava em Estugarda ou noutros pontos da Europa, como em Lisboa e no Porto. “Pessoas de fé querem estar juntas para se conhecerem e para construir um futuro diferente”, referia à ECCLESIA Isabel Bento, da Comunidade de Santo Egídio.
Num dia em que o ecumenismo se tornou operacional e os cristãos quiseram deixar sinais claros de que é possível construir uma sociedade diferente, quem participou na Jornada “Juntos pela Europa” não quis deixar de vincar que a religião não pode ser usada como “bandeira de conflitos”.
O Pe. Peter Stilwell referia que “novas religiões surgem no tecido europeu e colocam um desafio para que saibamos conviver juntos e em paz”.
A Jornada do dia 8 de Maio quis também deixar bem claro que a Europa não é feita apenas de moeda única, de políticas de convergência ou critérios económicos. “A Alma é que nos distingue a todos”, referia Ricardo Marques, dos Focolares.
Também do Movimento dos Focolares, Ana Maria Raposo especifica: “aqui põe-se em relevo a dimensão espiritual, aquilo que realmente nos une, que são as nossas raízes cristãs. Porém, isto traz como consequências imediatas, provoca uma outra dimensão política, económica e social”.
D. Manuel Clemente, Bispo auxiliar de Lisboa, recordou que esta Jornada “insere-se num espírito de reconstrução da Europa , o qual felizmente tem sido protagonizado desde os anos 40por grande leigos e grandes leigas das grandes igrejas cristãs, a começar por aqueles católicos de mão cheia que foram De Gaspre e Schumam que, através do Evangelho também quiseram reconstruir o continente em valores que por serem cristãos são absolutamente humanistas”.
À semelhança dos “pais” da Europa, que o Papa também recordou na sua intervenção, os leigos cristãos querem dar passos na construção de uma Europa com “alma” cristã. E fazem-no em união entre as diferentes confissões cristãs o que, para o sociólogo Marinho Antunes, “é sinal carregado de futuro. Há aqui um passo em frente: o ecumenismo torna-se operacional”.