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D. Januário Torgal e as mudanças do olhar sobre os ciganos

Agência Ecclesia
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A Igreja Católica em Portugal concluiu ontem uma aposta de valorização e promoção cultural na área da Pastoral dos Ciganos. No dia 9 de Julho, nas instalações da Conferência Episcopal Portuguesa, em Lisboa, D. Januário Torgal Ferreira, Presidente da Comissão Episcopal das Migrações e Turismo presidiu à cerimónia de distribuição dos diplomas do Projecto PALAVRA 1 (PP1), um programa de formação cristã, de oração e de formação sobre a cultura cigana, para que ciganos possam vir a assumir o processo de evangelização de outros ciganos. Ao longo de dois anos, 24 pessoas de etnia cigana frequentaram o PP1 que, como reconhece D. Januário, para além de ser um projecto de evangelização, tem como objectivo a integração social: “destacaria o realismo deste projecto de humanização e promoção cultural. Quem deve transformar o mundo são aqueles quem neles vive e os ciganos a residir em Portugal devem ser os primeiros a promover a cidadania dos seus irmãos”, explica à Agência ECCLESIA. A mudança de rumo nesta área de pastoral está marcada nesta iniciativa, assegura este responsável da Igreja Católica: “do ponto de vista cristão, os que assumem este projecto do Evangelho devem ser os primeiros apóstolos. Entre os ciganos, queremos fomentar este anúncio espontâneo por aqueles que conhecem a cultura, a história, os costumes e o temperamento dos seus irmãos; a Igreja assume esta aposta como um compromisso muito sério de evangelização”. “Este projecto é um ponto de chegada, porque aqueles que têm trabalhado ao serviço dos ciganos descobrem que só através da espontaneidade desta cidadania é possível transmitir Cristo. Por outro lado, é preciso mobilizar mais pessoas e aprofundar conhecimentos, trocar conhecimentos, pelo que acredito que haja esta difusão cultural e do Evangelho através deste princípio”, acrescenta. POLÍTICAS DEVEM MUDAR Ainda na ressaca do V Congresso Mundial dos Ciganos, D. Januário pede mudança na atitude dos nosso governantes. “Mudem de agulha, que mudem estilo, porque muitas vezes os governos reconhecem os problemas mas não se mexem para não abanarem a floresta. No comportamento social os ciganos assumem que alguns não são o melhor exemplo, pelo que temos de alertar as pessoas para não confundirem alguns casos com todo o povo”, refere este Bispo antes de acusar que “há preconceitos profundos em Portugal, a sociedade desumaniza-se e atira para as margens as pessoas que as incomodam. É preciso uma reconciliação cívica, porque a raça cigana tem uma riqueza tão grande que deveria excluir estas atitudes.” D. Januário não poupa a sociedade portuguesa pelo esquecimento a que tem votado estas comunidades: “não tenho visto boa vontade da parte das políticas sociais para incluir os ciganos, mas espero que as pessoas olhem para o nosso esforço construtivo e reconsiderem este e outros problemas, porque precisamos de todos, mesmo dos mais desprezados e esquecidos.” “Poucas pessoas em Portugal falam dos ciganos, eles não têm boa imprensa: os dedos das mãos sobram para contar os casos em que deles se fala, como acontece também com os imigrantes, com a escravatura branca, a prostituição, etc. É preciso verbalizar o que está mal para propormos algumas coisas construtivas em ordem a construir o bem”, concluiu.


Pastoral dos Ciganos