O Arcebispo Primaz de Braga, D. Jorge Ortiga, convidou os católicos a aceitar a pluralidade cultural e as diferenças religiosas que pontuam a sociedade moderna, sendo fiéis aos seus princípios e valores.
Abordando as “transformações e desafios religiosos no mundo contemporâneo”, no decurso de uma lição sapiencial, que assinalou os 139 anos da Associação de Socorros Mútuos Artística Vimaranense, o prelado bracarense exortou ainda os cristãos a valorizarem mais a sua cultura e formação religiosas.
«Vivemos num mundo de pluralidade de culturas e multiculturalidade religiosa, que deve desafiar os católicos a um sentimento mais profundo de diálogo e unidade, mantendo-se sempre fiéis às suas convicções e valores» sublinhou, ontem, em Guimarães, o Arcebispo Primaz de Braga.
D. Jorge Ortiga foi o convidado de honra da sessão solene comemorativa dos 139 anos da Sociedade, que lotou o salão nobre da instituição, para abordar a temática das «transformações e desafios religiosos no mundo contemporâneo», tendo apontado a necessidade de aceitar o «diverso» como uma riqueza e testemunho de uma humanidade nova. «Nesta sociedade global deveremos manter este orgulho de ser católicos, mantendo- nos fiéis ao que somos, mas também uma postura de nos abrirmos efectivamente à Igreja e aos problemas do mundo inteiro, aceitando naturalmente as diferenças que nos rodeiam », acrescentou o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, desafiando os cristãos a aceitar os caminhos do multiculturalismo, do diálogo ecuménico e inter-religioso.
Ao longo da sua lição sapiencial, num tom permanente de interpelação, o prelado bracarense balizou alguns dos desafios de sermos crentes e católicos nos dias de hoje, perante as visíveis transformações religiosas, sociais e mundiais. «As visíveis transformações que tudo modificam têm também que modificar a nossa maneira de ser e a nossa maneira de viver enquanto católicos», resumiu. Emparceirando uma postura civil e religiosa que deve buscar permanentemente um clima de paz e fraternidade, D. Jorge Ortiga apontou o caminho do «respeito e tolerância pela diferença» como forma de alcançar o desejável clima de «paz, harmonia e concórdia entre todos».
«Não estamos num mundo uniforme, mas deveremos estar num mundo da unidade », pediu o Arcebispo de Braga, apontando os diferentes dedos da mão para ilustrar a desejável «convivência na diversidade». Perante os diferentes modos de ser, estar e pensar, bem como perante uma sociedade mais evoluída, melhor formada e mais esclarecida, torna-se igualmente necessário que os católicos apostem mais na sua cultura religiosa.
Convite à promoção da cultura religiosa
«Ainda estamos num catolicismo e cristianismo de nascimento (nascemos cristãos), quando é necessário um cristianismo de vida e de conhecimento da doutrina que professamos», considerou D. Jorge Ortiga, notando que a herança familiar já não basta. «Hoje, deveremos ser capazes de apresentar as razões da nossa fé», advogou o presidente da Conferência Episcopal, apontando o caminho da formação cristã como algo que a Igreja assume, estimula, mas ainda sem o eco pretendido.
O assunto assume redobrada importância perante a vertigem dos tempos modernos, onde tudo evolui e se altera muito rapidamente. Desafiando os católicos a conhecer mais aprofundadamente a doutrina que professam, D. Jorge Ortiga exortou os cristãos à leitura, à selecção de conteúdos televisivos e informáticos, bem como à frequência de acções que ajudem e promovam a cultura religiosa. Numa sociedade onde o tempo livre se multiplica, por força da maior capacidade de mobilidade e ferramentas de bem-estar, torna-se ainda necessário, enquanto desafio religioso, «que os católicos entendam o que é o tempo livre», pediu D. Jorge, reprovando os “gastos excessivos” frente à televisão.
«O tempo livre deverá servir para nos enriquecermos, sozinhos e uns com os outros, reconhecendo a vantagem de aprofundar a nossa existência pessoal, mas também pensando na dimensão intelectual para podermos ser resposta aos problemas actuais que nos são colocados», concretizou. Este é mesmo «um desafio que a Igreja Católica ainda não aproveitou suficientemente », reconheceu o Arcebispo Primaz, pedindo ainda uma maior consciência ecológica e da natureza.
Numa altura em que se fala muito da temática, o pastor bracarense entende que os católicos «ainda não estão a agir de harmonia com a ecologia », enquanto temática religiosa (o mundo foi criado por Deus, que o confiou ao homem e à mulher). «Hoje, temos este dever e obrigação de trabalhar também esta realidade natural que nos rodeia, fazendo com que o mundo seja um espaço onde possamos viver na harmonia, no equilíbrio e com todos os valores indispensáveis», defendeu D. Jorge Ortiga, concluindo que a Igreja deve também ser capaz de se orientar para este novo desafio religioso.