Revista Missionária «Além-Mar» defende no seu número de Novembro que optar pelas energias renováveis é sobretudo «uma atitude espiritual»
Com o preço do petróleo acima dos 50 dólares por barril e a bater quase diariamente novos recordes, as energias renováveis voltam a merecer as atenções de todos aqueles que vêem nelas uma forma de reduzir a dependência da humanidade daquele combustível fóssil, cujas reservas poderão esgotar-se até meados deste século. De resto, os efeitos colaterais dessa dependência são de tal ordem, que cada dia que passa se torna mais urgente encontrar alternativas viáveis.
As energias renováveis continuam a ser utilizadas em muito pequena escala, quase a título experimental, e não se pode dizer que país algum tenha já escolhido uma delas como a principal fonte de fornecimento de energia para a sua indústria, transportes ou mesmo produção de electricidade. Apesar das suas vantagens – serem inesgotáveis e não poluentes – estas energias renováveis não são suficientemente aliciantes do ponto de vista económico. A prova disso é que o valor das empresas que se dedicam às energias renováveis tem vindo a cair nas bolsas mundiais nos últimos dois anos, enquanto o das petrolíferas subiu astronomicamente.
A verdade é que tudo aquilo que representa uma certa noção de «desenvolvimento» – indústrias, automóveis, auto-estradas, grandes edifícios – está concebido para depender do petróleo e da electricidade. Que faríamos com todos os veículos que hoje são movidos a gasolina ou gasóleo, apenas para citar um exemplo?
Apesar dos interesses instalados dos países produtores de petróleo e das empresas petrolíferas, as energias renováveis vão ganhando terreno, a ponto de algumas delas terem registado uma taxa de crescimento anual da ordem dos 20 por cento ao longo da última década. A afirmação está contida no documento final da Conferência Internacional sobre Energias Renováveis, realizada em Bona no passado mês de Junho.
A conferência, organizada na sequência da Cimeira sobre Desenvolvimento Sustentável (Joanesburgo 2002), contou com a participação de representantes de 154 países e nela governos, organizações internacionais e elementos da sociedade civil assumiram o compromisso de promover o desenvolvimento daquelas energias. Foi afirmado na ocasião que o maior aproveitamento do vento, do sol, da água, da biomassa e do calor natural do centro da Terra proporcionará o acesso à electricidade a mais de mil milhões de pessoas.
O ministro do Ambiente alemão, Jürgen Trittin, manifestou a convicção de que o plano de acção aprovado em Bona vai permitir a redução em 1200 milhões de toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera até ao ano 2015, ou seja, «mais do que as emissões produzidas hoje pelo Japão». Apesar de as autoridades alemãs terem considerado esta Renewables 2004 «um êxito total», para os movimentos ecologistas ela foi apenas «um raio de luz em termos de política energética» ou «um pequeno avanço em termos de protecção do clima».
«Entre os benefícios que podem advir de uma maior utilização da energia renovável, contam-se: um aumento da segurança do fornecimento de energia, uma menor ameaça de alterações climatéricas, a estimulação do crescimento económico, criação de postos de trabalho (frequentemente nas áreas rurais), maiores rendimentos, redução da pobreza, maior equidade social e protecção do ambiente a todos os níveis», lê-se no documento final da conferência.
Brasil pioneiro
Basicamente, as energias renováveis são aquelas que não esgotam as suas reservas num prazo de tempo muito longo, enquanto as não renováveis são as energias de origem fóssil e que, mais cedo ou mais tarde, esgotarão as reservas. Entre as primeiras contam-se a solar, a eólica, a das marés, a biomassa e a hídrica, enquanto na segunda categoria entra o petróleo, o gás natural, o carvão e o urânio.
O desenvolvimento das energias renováveis teve início com as crises petrolíferas da década de 70 e com a tomada de consciência de que os recursos fósseis não são inesgotáveis. Por outro lado, a elevada poluição causada pela utilização destes últimos tornou-os pouco compatíveis com a exigência de um desenvolvimento sustentável e contribui também para o aquecimento global do planeta, que tem vindo a verificar-se nas últimas décadas.
Algumas das energias renováveis têm sido estimuladas na perspectiva de serem uma opção de baixo custo para abastecer pequenas comunidades, nomeadamente nos países em desenvolvimento, onde 2000 milhões de pessoas vivem sem acesso a formas comerciais de energia. Porque, também no caso das renováveis, existe uma energia para pobres e uma energia para ricos, como mais adiante veremos.
Cabe aqui uma pequena referência ao Brasil, visto como «o país que melhor detém as condições para liderar a transição do sistema energético fóssil/nuclear actual para um sistema baseado totalmente em energias renováveis», numa análise de um investigador do Laboratório de Energia dos Ventos da Universidade Federal Fluminense, Geraldo M. Tavares.
No seu entender, não se trata de uma utopia, pois o Brasil dispõe já de hidroeléctricas de pequenas dimensões, de centrais eólicas, centrais termoeléctricas abastecidas por biomassa, aquecimento solar e arquitectura solar. Além disso, o Brasil «é o único país do mundo que teve sucesso na implantação de um programa a nível nacional de substituição da gasolina por álcool na sua frota automóvel». Apesar das pressões contra, 25 por cento do combustível utilizado pelos automóveis é etanol misturado na gasolina, álcool este utilizado a partir da fermentação e destilação da cana-de-açúcar.
Apesar desta aposta nas energias renováveis e não poluentes, o Governo brasileiro está a considerar a hipótese de levar por diante a construção do reactor nuclear Angra 3, para completar um projecto iniciado em 1971 e que dotou já o Brasil com os reactores 1 e 2 do mesmo nome, situados na zona de Angra dos Reis (estado do Rio de Janeiro).
Calor «eterno»
A energia solar, como o próprio nome indica, resulta do aproveitamento da energia gerada pelo Sol como fonte de calor e de luz. Esta energia assume duas formas: fototérmica (captação e armazenagem da energia do Sol sob a forma de calor, a partir das radiações solares e que já é utilizada hoje em dia para aquecimento de água em residências, hotéis e hospitais) e fotovoltaica (a energia obtida através da conversão directa da luz em electricidade, que tem sido utilizada nomeadamente na exploração espacial).
Os especialistas afirmam que ela está garantida para os próximos 6000 milhões de anos e que em cada ano o Sol lança sobre a Terra quatro mil vezes mais energia do que aquela que consumimos.
É talvez a energia renovável mais popular, devido à sua utilização doméstica e à divulgação, já relativamente ampla, dos painéis solares que se podem instalar, por exemplo, nos telhados das casas. Se, por um lado, a energia solar permite o aquecimento de águas, por outro, permite também aplicações na área da refrigeração. Nos países árabes, por exemplo, funcionam aparelhos de ar condicionado a energia solar e, no Brasil, está a ser estudado um sistema de refrigeração com base na energia solar. Também na agricultura são amplas as suas utilizações, nomeadamente nas estufas.
O Sol constitui assim uma fonte de energia renovável ideal para países que registam longas horas de Sol ao longo de todo o ano. Em Setembro deste ano, foi dado a conhecer no Brasil um protótipo de fogão solar para cozinhar, enquanto num subúrbio da capital argelina foi inaugurada uma estação de serviço totalmente alimentada a energia solar, incluindo as próprias bombas de combustível.
Um gigantesco fogão solar, com capacidade para cozinhar para 1200 pessoas em simultâneo – o que faz dele um dos maiores do mundo – foi inaugurado na Índia no monte Abu (Rajasthan) em Abril de 1997. Este é apenas um exemplo do muito que tem sido feito em termos das energias renováveis na Índia, onde se calcula que mais de um milhão de lares, especialmente nas áreas rurais, possa vir a contar com energia solar dentro de pouco tempo.
O mercado das energias renováveis neste país está presentemente avaliado em 500 milhões de dólares e regista um crescimento anual da ordem dos 15 por cento. Para já, não se trata de um negócio lucrativo – o investimento está calculado em 3000 milhões de dólares –, mas o Governo indiano não abandona os planos de, até ao ano 2012, conseguir satisfazer dez por cento das necessidades de energia do país com as energias renováveis.
A própria empresa petrolífera Shell, uma das maiores do mundo, está a investir no desenvolvimento e divulgação da energia solar, nomeadamente no continente asiático. Se, por um lado, se trata de uma oportunidade de negócio para a petrolífera num mercado inexplorado – os equipamentos que a Shell monta em cada domicílio funcionam mediante a introdução de um cartão previamente pago –, a verdade é que constitui também um incentivo à substituição dos combustíveis fósseis por uma energia não poluente.
A força do vento
Pode-se dizer que a energia eólica foi das primeiras a ser utilizada pelo homem: no século VII já se utilizavam moinhos elementares na Pérsia e, no século XII, apareceram os primeiros na Europa. Por outro lado, os barcos movidos pelo vento impuseram o seu domínio nos mares.
O uso das turbinas a vento para gerar electricidade teve início na Dinamarca em finais do século XIX, tendo-se estendido depois a todo o mundo. Hoje, a energia eólica apresenta-se como uma das energias renováveis com mais potencialidades e mais hipóteses de desenvolvimento futuro, com os cientistas a calcularem que, em meados do século XXI, dez por cento da electricidade mundial pode ser obtida a partir dos geradores de energia eólica. Dez por cento é precisamente a meta que a União Europeia se propõe produzir até 2030.
Actualmente, a Dinamarca já produz mais de 12 por cento da sua electricidade a partir do vento, enquanto no Norte da Alemanha a produção de energia eólica representa 16 por cento do total. Zonas particularmente ventosas, como o País de Gales, produzem também já energia eólica, e em Espanha existem parques eólicos distribuídos por todo o país.
Se bem que dispendiosa quanto ao investimento necessário, a energia eólica acaba por ser produzida a preços competitivos e vários países fora do continente europeu mostram-se também interessados nela. Por exemplo, a Argentina, que considera ter na Patagónia o maior centro de energia eólica do mundo pelas condições climatéricas, está a levar a cabo um plano para produzir naquela região 3000 megawatts de energia eólica até 2010, enquanto a China conta ter até 2005 as condições para produzir 2500 megawatts desta energia.
Domar as ondas
As ondas dos mares não servem apenas para as competições de «surf». Elas podem tornar-se também numa fonte de energia e, segundo os seus defensores, com a vantagem de não terem o mesmo impacte visual sobre a paisagem que têm os parques eólicos.
A energia dos oceanos pode ser aproveitada de diferentes maneiras, a saber: a energia das marés, a energia associada ao diferencial térmico, a das correntes marítimas e a das ondas. Na realidade, marés e ondas são as fontes principais desta energia, que pode ser obtida a partir dos movimentos horizontais ou verticais, produzindo-se milhões de watts de electricidade.
Na Europa, a primeira central de energia das ondas deverá estar concluída no próximo ano na Cantábria (Espanha) e fornecerá electricidade às 1500 habitações da localidade de Santoña. Em França, onde a primeira patente de energia das ondas foi registada em finais do século XVIII (se bem que só na segunda metade do século XX tenham começado a desenvolver-se projectos sérios deste tipo), existe na região da Bretanha uma barragem que utiliza a energia das marés.
A Dinamarca está igualmente a desenvolver tecnologia para a construção de uma central de grandes dimensões e também a Austrália e o Japão se preparam para aproveitar a energia das ondas. Entre os países em desenvolvimento, Índia e China são os que se mostram mais avançados na criação de protótipos de pequena capacidade e o Brasil considera que, dentro de 15 anos, será possível satisfazer 15 por cento das necessidades de electricidade do país com a energia dos oceanos.
A energia do lixo
O biogás resulta da degradação biológica anaeróbica da matéria orgânica, efectuada por espécies microbianas. Tem a sua origem nos efluentes agro-pecuários, da agro-indústria e urbanos. É formado por uma mistura de componentes, dos quais se destacam o metano, o dióxido de carbono, a humidade, o gás sulfídrico e o hidrogénio, alguns dos quais têm de ser eliminados antes da utilização comercial do gás. Admite-se que, no futuro, possa vir a substituir o gás natural, ou numa fase inicial, se proceda à sua injecção nas redes de gás natural.
No Nepal, por exemplo, a utilização do biogás tem sido considerada uma experiência de sucesso. O pioneiro desta forma de energia foi B.R. Sauboll, um padre e professor belga que, em 1955, construiu uma central de produção de biogás a título demonstrativo. Vinte anos depois, estavam instaladas 250 fábricas de biogás e hoje são já mais de 100 mil. Com 22 milhões de habitantes, dos quais mais de 90 por centro trabalham na agricultura, o Nepal satisfazia 91 por cento das suas necessidades de energia a partir de fontes tradicionais (lenha, subprodutos agrícolas e dejectos animais), que já foram parcialmente substituídas pelo biogás.
A divulgação do biogás junto das populações tem sido feita através de cartazes, anúncios na rádio e televisão. A utilização deste tipo de energia estimulou ao mesmo tempo o fabrico de aparelhos de uso doméstico adaptados ao biogás e ajudou a reduzir o tempo e o trabalho das mulheres a recolher lenha para cozinhar.
Os perigos da biomassa
A biomassa tem a sua origem nos produtos e resíduos da agricultura (incluindo substâncias vegetais e animais), nos resíduos das florestas e indústrias derivadas e na parte biodegradável dos resíduos industriais e urbanos. Resíduos industriais e cultivos destinados especificamente à produção de energia representam uma fonte mais recente da biomassa.
Tradicionalmente, a biomassa é utilizada para cozinhar e para aquecimento nos países em desenvolvimento. O Banco Mundial calcula que 50/60 por cento da energia nos países pobres da Ásia e 70/90 por cento nos países africanos provêm da biomassaganização Mundial de Saúde.
O desafio consiste em tornar este tipo de combustível menos poluente, ou em conceber fogões de queima com melhores condições de exaustão, podendo assim reduzir-se em 80 por cento a poluição doméstica. Uma produção da energia da biomassa em condições menos poluentes pode tornar-se num factor importante para a economia mundial.
Dádiva das profundezas
A geotermia é o conjunto das ciências que estudam e exploram o calor terrestre. Ou melhor, que sai de dentro da Terra e que pode ser libertado através dos vulcões, dos geysers ou das fontes termais de água doce.
Na Islândia faz-se já um bom aproveitamento da energia geotérmica. A Indonésia, por outro lado, apresenta um potencial para produzir 100 por cento da sua electricidade a partir da geotermia, mas as convulsões políticas da última década adiaram os estudos que já vinham sendo feitos nesse sentido. Além disso, trata-se de uma forma de energia que envolve riscos – a energia libertada pela Terra não é facilmente domável –, que não se encontra acessível em toda a parte e que nem sempre se revela compensadora do ponto de vista financeiro.
Hidrogénio: «limpo» como a água
O hidrogénio está a ser encarado como a energia do futuro: inesgotável e praticamente não poluente. É o elemento químico mais abundante no universo, o mais leve e o que contém maior valor energético. A única complicação reside no facto de nunca se encontrar isoladamente, mas sempre combinado com outros elementos. Pode ser produzido através da electrólise de soluções aquosas ou da reacção entre vapor da água e hidrocarbonetos.
Como o recurso aos hidrocarbonetos continua a envolver a eliminação de poluentes, a esperança dos investigadores centra-se sobretudo na água (H2O), o que não é difícil de perceber: imagine-se um motor que só liberte vapor... Até aqui a maior dificuldade consiste na quantidade de energia necessária para «libertar» o hidrogénio do oxigénio, bem como os custos do processo. Infelizmente, no futuro imediato o recurso aos hidrocarbonetos continua a ser a alternativa mais económica e viável.
Nas últimas quatro décadas, a Europa tem investido amplos recursos na investigação e desenvolvimento desta energia, que, ao não produzir emissões poluentes, pode ajudar a alcançar os objectivos do Protocolo de Quioto (1997) de reduzir em mais de cinco por cento a emissão de gases com efeito de estufa entre 2008 e 2012.
A BMW alemã, por exemplo, produz já modelos de automóveis a hidrogénio. Ainda recentemente foi assinado nos Açores um protocolo que visa a instalação de uma central de produção de hidrogénio na ilha Terceira. O hidrogénio que vier a ser produzido destina-se à rede de electricidade do arquipélago e a acções de demonstração na propulsão de veículos e aquecimento de águas.
Nos Estados Unidos, o Presidente George Bush anunciou no ano passado um investimento de 1700 milhões de dólares no desenvolvimento de automóveis movidos a hidrogénio e fábricas como a Ford e a General Motors aderiram já ao projecto. Esta última conta vender na próxima década um milhão de veículos a hidrogénio.
Aquecimento: pior que o terrorismo
Em Fevereiro deste ano, o Pentágono elaborou um relatório onde afirma que o aquecimento global da Terra é uma ameaça maior do que o terrorismo. Opinião semelhante foi expressa, em contextos separados, por Hans Blix, o inspector da ONU para os armamentos no Iraque, e por David King, o principal conselheiro do Governo britânico para assuntos de ciência.
O documento admite que as alterações climatéricas provocadas pelo aquecimento global do planeta possam ter tais consequências na vida dos povos que acabarão por degenerar em situações de anarquia e até mesmo de guerra nuclear. Um dos perigos apontados é o da fusão dos glaciares, que poderia conduzir ao aumento do nível das águas do mar, deixando mesmo submersas algumas cidades costeiras.
Outros estudiosos têm alertado para a possibilidade de os efeitos do aquecimento global virem a incidir mais nas zonas dos trópicos, onde vive a maioria dos habitantes mais pobres da Terra, agravando assim ainda mais a sua situação de penúria ao afectar a produção de alimentos e o abastecimento de água.
A causa principal deste aquecimento global tem sido atribuída à emissão de gases com efeito de estufa por parte das indústrias e dos transportes. Entre esses gases conta-se o anidrido carbónico, o metano e o óxido nitroso, resultantes em grande parte da queima de combustíveis fósseis como o petróleo e o carvão, enquanto o hexafluoreto está mais associado aos sistemas de transmissão e distribuição de electricidade. Estados Unidos, parte da União Europeia, Rússia, Japão e Índia contam-se entre os principais emissores de anidrido carbónico para a atmosfera.
Petróleo: um segredo da terra
Uma pergunta que está na mente de toda a gente refere-se à verdadeira dimensão das reservas mundiais de petróleo e à sua duração. A verdade é que ninguém sabe. Apenas podem fazer-se estimativas e o facto de alguns países produtores reverem periodicamente os seus próprios números permite duas interpretações: ou não sabem efectivamente ou não têm interesse em divulgar os números reais.
Num artigo publicado no passado mês de Setembro e intitulado «A grande incógnita das reservas de petróleo», o conceituado jornal francês Le Monde escrevia: «Sobre os membros da Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP) recai repetidamente a suspeita de que sobreavaliam as suas reservas “confirmadas”, uma vez que a sua quota de produção é tanto mais elevada quanto o forem as reservas.»
Os números declarados pelos países da OPEP aumentaram consideravelmente nos últimos vinte anos, sem que tenham sido descobertas novas jazidas importantes. Assim, por exemplo, a Arábia Saudita, o maior produtor mundial, declarou um aumento das suas reservas da ordem dos 165 mil milhões de barris para os 259 mil milhões, enquanto a Venezuela passou de 20 mil para 72 mil milhões.
Ainda de acordo com o mesmo artigo, os especialistas mais pessimistas calculam em 780 mil milhões de barris as reservas mundiais de petróleo, enquanto outras fontes apontam para os 1100 milhões de barris. Há quem admita que elas poderão esgotar-se por volta de meados do século XXI.
A única certeza é que as reservas mundiais de petróleo não são inesgotáveis, sobretudo se tivermos em consideração que se consomem diariamente 80 milhões de barris de petróleo em todo o mundo e que a tendência é para este valor subir na mesma medida em que cresce a economia de alguns países. É o caso, por exemplo da China, que já desalojou o Japão do lugar de segundo maior consumidor de petróleo (5,6 milhões diários, depois dos EUA, com 20 milhões).
Nuclear: a energia mais controversa
A energia nuclear não é, em si mesma, mais cara do que as outras. Então o que a torna tão polémica? Simplesmente as medidas de segurança que há que tomar à sua volta e que são, essas sim, extraordinariamente dispendiosas.
De acordo com um documento recente sobre «A economia da energia nuclear», publicado pelo Uranium Information Centre, com sede em Melburne (Austrália), a energia nuclear custa em média 0,4 cêntimos de euro por kW/hora, mais ou menos o mesmo que a energia hidroeléctrica, enquanto a do carvão passa de 4,1 cêntimos, a do gás varia entre 1,3 e 2,3 cêntimos, e só a energia eólica bate a nuclear em preço: 0,2 cêntimos por kW/hora.
A energia nuclear apresenta ainda a vantagem de não produzir fumos nem dióxido de carbono, não contribuindo assim para o efeito de estufa, e de produzir quantidades consideráveis de energia a partir de pequenas quantidades de combustível.
O grande problema reside na segurança. Quem não se lembra ainda do acidente na central nuclear de Chernobyl (Ucrânia), em 1986? A criação de todas as condições de segurança para impedir fugas de material radioactivo é extremamente dispendiosa, bem como a armazenagem dos resíduos nucleares, que necessitam de permanecer selados e enterrados durante muitos anos até eliminar toda a radioactividade. Também o processo de desactivação de uma central nuclear quando chega ao termo da sua vida útil tem custos elevadíssimos, por vezes mesmo superiores aos da própria construção.
Em 2000, a Alemanha decidiu encerrar gradualmente as suas 18 centrais nucleares, que produziam um terço da electricidade do país. Posteriormente, no entanto, aprovou um acordo limitando a 32 anos o período de vida de uma central nuclear e, até ao presente, apenas uma foi na realidade desactivada, a de Stade (perto de Hamburgo), que estava em funcionamento desde 1972. Os custos da operação: 500 milhões de euros, comparados com os 300 milhões de marcos (153 milhões de euros) que tinha custado a sua construção...
Portugal: devagar devagarinho
Portugal vai também avançando no campo das energias renováveis, mas bastante mais lentamente do que outros países com características ou recursos semelhantes. E arrisca-se mesmo, segundo afirmava numa entrevista recente o engenheiro Carlos Pimenta, director do Centro de Estudos em Economia da Energia, dos Transportes e do Ambiente, a pagar multas por não cumprir os limites máximos de emissões de dióxido de carbono impostos pela União Europeia e pelo Protocolo de Quioto. Para cumprir estes objectivos, Portugal necessita de produzir 39 por cento da sua energia eléctrica através de energias renováveis até 2010.
No caso da energia eólica, existem já perto de 30 parques eólicos, que não produzem mais do que 350 megawatts, ou seja, 0,5 por cento da electricidade consumida em Portugal. Segundo a citada entrevista, por exemplo, só a Galiza produz 2000 megawatts.
No entanto, está prevista até finais de 2007 a instalação de 11 novos parques eólicos na região do Minho, no que deverá ser o maior empreendimento do País para a produção de energia eólica. A adjudicação para a construção dos três primeiros era aguardada até finais de Outubro e, a cumprirem-se todos os prazos, deverão entrar em funcionamento no Verão de 2005.
A geotermia, principalmente no arquipélago dos Açores, dada a origem vulcânica das suas ilhas, pode também contribuir para alcançar os objectivos em matéria de redução da emissão de gases poluentes.
O aproveitamento dos recursos geotérmicos nos Açores teve início em 1980, na Ribeira Grande (São Miguel) e, neste momento, é responsável por um terço da produção eléctrica da ilha. Em resultado de projectos em desenvolvimento neste momento, prevê-se que, até 2007, possam ser produzidos mais 30 megawatts, tanto em São Miguel como na Terceira.
Os estudos realizados até agora indicam que todas as ilhas do arquipélago, à excepção da de Santa Maria, têm um potencial geotérmico suficiente para satisfazer as suas necessidades em matéria de energia.
Portugal possui ainda um potencial enorme a nível de energia solar e das marés – quem dera à maior parte dos países ter uma tão grande exposição ao longo do ano e uma costa tão extensa e com ondas tão «poderosas» –, que está muito longe de ser convenientemente explorado.
Ana Glória Lucas, Além-Mar – nº 531Notícias relacionadas• Espiritualidade sustentável