O arqueólogo Francisco Sande Lemos defende que, se muitos miliários chegaram até aos nossos dias, isso deve-se à acção da Igreja que, desde o século XVI, se preocupou em mantê-los e em reerguer os que estavam tombados. Na sua opinião, uma das explicações para esta preservação é o facto destes marcos espalhados, não só em território português, mas também na Galiza, fazerem referência a Bracara Augusta.
Assim, tendo em consideração que os Arcebispos de Braga sempre ostentaram título de Primaz das Hespanhas, estes marcos eram entendidos pela Igreja como «uma afirmação da importância da Arquidiocese de Braga», havendo toda a necessidade de os preservar.
«A Igreja tirava partido da presença dos miliários que referiam Braga em sítios que já pertenciam a outros bispados, como o de Tui e Ourense», salienta. Segundo explica, há mesmo um “falso” miliário construído no século XVIII por D. Rodrigo Moura Telles, que está neste momento nas colecções do Museu D. Diogo de Sousa, onde o Arcebispo mandou gravar que tinha ordenado que se reerguessem uma série de miliários que estavam tombados.
«Outro aspecto muito interessante e muito útil nessa conservação que foi feita pela Igreja e pelos sacerdotes foi a circunstância de terem avivado as inscrições. Como sabiam latim e conheciam bem a história romana isso acabou por ser fundamental para a conservação de muitas inscrições que, se não fossem eles, teriam desaparecido», salienta o arqueólogo da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho. Ainda segundo Sande Lemos, todos os miliários que se encontram no Museu D. Diogo de Sousa têm as suas inscrições avivadas e num latim correcto.
«Os sacerdotes conheciam bem toda a história de Roma. Sabiam todos os pormenores, como os anos que cada imperador tinha governado. Por isso, nós devemos também à acção da Igreja e aos Arcebispos a conservação destes miliários», disse.
O arqueólogo salienta que o Museu D. Diogo de Sousa, em Braga, possui uma boa colecção de miliários, composta por 36 peças, sendo caso único no mundo, que representam vários imperadores, podendo- se praticamente contar a história do Império Romano através deles.
Funcionalidade dos miliários
No que diz respeito à funcionalidade destes miliários, Sande Lemos explica que eles serviam para marcar as distâncias, para que os utilizadores da Via Nova soubessem, a cada 1480 metros, em que ponto estavam no seu percurso entre Bracara Augusta e Asturica Augusta.
«Cada miliário era colocado numa milha», afirma. O facto de haver mais do que um destes marcos numa determinada milha é que continua por esclarecer e a admirar os investigadores. «Se havia uma mudança de imperador e, sabendo- se que o miliário era também uma maneira de fazer propaganda do imperador vigente e dos seus títulos, estes marcos nos outros países eram regravados. Por razões que se desconhecem, aqui na vez de regravar os miliários, faziam um novo e, por isso, existem em diversas milhas vários miliários com nomes de diversos imperadores», afirma, acrescentando que até este momento ninguém apresentou ainda uma hipótese plausível para esta circunstância.
A verdade é que há imperadores que estiveram no poder dois ou três anos, já no período do Baixo Império, e que os únicos miliários no mundo com os seus nomes estão na Jeira e é isso que surpreende os especialistas.
Por outro lado, Sande Lemos realça que estes marcos estavam inseridos no cursus publicus, que era uma estrutura de funcionamento aplicada às vias oficiais do império. Para além dos miliários, este cursus publicus fixava a existência, de dez em dez milhas, de albergarias chamadas mansiones, e, num intervalo mais curto, de mutationes, que eram os locais onde, por exemplo, se guardava o alimento dos animais e o viajante até podia mudar de cavalo ou cuidar dele.