Nacional

Igreja ao lado dos migrantes

Octávio Carmo
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Chegou ao fim o V Fórum de Migrações da Caritas Europa, com apelos a uma nova perspectiva sobre o fenómeno migratório

Chegou ao fim o V Fórum de Migrações da Caritas Europa, no qual vários responsáveis da Igreja Católica deixaram apelos em favor de uma nova perspectiva sobre o fenómeno migratório, procurando defender a dignidade humana de cada migrante e superar perspectivas exclusivamente economicisitas ou securitárias sobre a imigração. Na manhã de Sábado, o presidente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana (CEMH), D. António Vitalino, defendeu "a construção de uma humanidade em mobilidade, mas pacífica e solidária, acolhendo e ajudando sempre os mais fracos com entranhas de misericórdia, aceitando as diferenças e diversidade como uma riqueza". O Bispo de Beja falou da necessidade de "um diálogo intercultural, para melhor nos conhecermos e, em conjunto, construirmos a cidade dos homens, aberta ao Reino de Deus, que está entre nós como uma semente, que precisa de germinar e dar fruto". “Construir Pontes ou Barreiras. Explorando as complexas dinâmicas entre migrações e desenvolvimento" foi o tema da iniciativa da Cáritas Europa, que este ano se realizou na Costa da Caparica, aproveitando a presidência portuguesa da União Europeia. Durante a Missa celebrada este manhã, D. António Vitalino pediu aos participantes que procurem " ajudar a transformar as estruturas sociais e políticas dos nossos países e da nossa Europa, para que as migrações se tornem pontes para o desenvolvimento gradual e harmonioso de todos os povos". O prelado lamentou, por outro lado, que "os bons propósitos e projectos de convivência pacífica com os imigrantes" acabem por cair por terra "logo que aparecem as provações, como são o desemprego, as crises sociais, os grupos xenófobos, os actos de desespero dos desempregados". A fechar os trabalhos, o Bispo Nicholas DiMarzio, da diocese norte-americana de Brooklyn, deixou aos presentes o desafio de se tornarem "advogados informados para os migrantes", seja nos países de destino, seja nos de origem. "Conhecer os factos e ser parte da solução que pode ser oferecida é uma parte importante do nosso trabalho", indicou. Neste Fórum, o ministro da Presidência afirmou que o Governo garante total atenção às questões da imigração e fez questão de frisar que a resolução dos problemas da imigração e dos imigrantes é uma “prioridadeâ€. Pedro Silva Pereira indicou que "o reforço das políticas públicas para a integração dos imigrantes só pode ter sucesso com o desenvolvimento de parcerias na sociedade civil e com uma aliança entre as políticas públicas e as instituições que estão no terrenoâ€. Valorizar os imigrantes Na abertura dos trabalhos, acompanhados pela Agência ECCLESIA, o presidente da Comissão Episcopal para a Pastoral Social, D. José Alves, apelou à “solução dos múltiplos problemas ligados com as situações das migraçõesâ€, valorizando a chegada de imigrantes com as suas “energias produtoras de trabalho e novos valores culturaisâ€. “Os imigrantes são fonte de riqueza e desenvolvimentoâ€, defendeu. O Bispo de Portalegre-Castelo Branco falou ainda da “frescura vital†que estes migrantes trazem aos “envelhecidos países de acolhimentoâ€. Este responsável não deixou de alertar para “os perigos de uma imigração descontroladaâ€. No mesmo sentido se manifestou José Magalhães, Secretário de Estado da Administração Interna, que falou de “uma imigração ajustada, regulada e eficazâ€. Para este responsável, “hoje a escolha não é entre ter ou não ter imigraçãoâ€, mas regular bem os fluxos migratórios. Se tal não for feito, alertou, “as primeiras vítimas serão sempre os imigrantesâ€. Neste âmbito, falou da necessidade de leis com “sentido humanistaâ€, conjugando o plano económico com a integração dos migrantes e a prevenção da imigração clandestina. A secretária-geral da Caritas Internationalis, Lesly-Anne Knight, considerou na sua intervenção que a imigração forçada de pessoas é um “escândalo internacionalâ€, um dos maiores dos nossos dias, que exige uma “resposta global urgenteâ€. D. Vincent Landel, Bispo de Rabat (Marrocos), veio a Portugal pedir que a discussão sobre o fenómeno migratório se concentre mais sobre "o que se passa nos países de partida". Para o prelado de Marrocos, cada pessoa deve ter "o direito a poder viver feliz no seu paísâ€, evitando assim a necessidade de procurar uma vida melhor em terra estranha. O Fórum ficou marcado por uma cerimónia simbólica, na noite de Quinta-feira, quando representantes de várias confissões religiosas e membros das Cáritas de diversos países se reuniram na praia da Caparica para lembrar todos aqueles que morreram no mar, no deserto e nas montanhas ao tentar chegar à "Europa fortificada". A cerimónia teve como lema “Morrer de Esperançaâ€, sendo dedicada ao silêncio, à memória e à oração "ao Deus que abate todas as fronteiras". Calcula-se em 8000 o número de mortes ocorridas desde 1988, das quais 6078 por afogamento no Mediterrâneo e Atlântico, com 2785 corpos que nunca foram encontrados.


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