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Media ainda estigmatizam a imigração

Octávio Carmo
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O mundo da televisão continua a privilegiar um olhar sobre os imigrantes onde se destacam acontecimentos do âmbito do crime e da ilegalidade. A conclusão foi apresentada hoje durante a discussão da investigação “Imagens da Imigração na Imprensa e na Televisão Portuguesa”, coordenada por Isabel Férin, docente da Universidade de Coimbra. O trabalho foi apresentado pelo Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas (ACIME), num workshop realizado no Forum Multicultural do Centro Nacional de Apoio ao Imigrante. A equipa de investigação analisou o ano de 2003 nos jornais Público, Diário de Notícias, Jornal de Notícias, Correio da Manhã, Capital, 24 Horas, Expresso e Independente. Na televisão foram incluídos os meses de Abril a Dezembro, do horário nobre na RTP1, RTP2, SIC e TVI. Para o Pe. Rui Pedro, director da Obra Católica Portuguesa de Migrações, “é necessário mudar o olhar sobre os imigrantes, torná-lo mais completo e evitar tudo o que possa originar reacções xenófobas”. “A nossa opinião deve ter mais em conta o que os imigrantes nos dizem de si e não aquilo que as televisões mostram”, referiu à Agência ECCLESIA. O estudo permite concluir, ainda assim, que a imprensa escrita é actualmente mais cuidadosa na abordagem da temática, devendo-se essa mudança ao aparecimento de jornalistas especializados. A investigação permitiu concluir que o tom dominante dos textos foi o “neutro” (54%), embora o pendor “negativo” tenha marcado 32% das situações e o “positivo” tenha sido o menor de todos, com 15%. Nas televisões, o tom mais frequente foi o “moralizante”, o que se explica pelo facto de os imigrantes aparecerem, na maioria dos casos, como figurantes, com o protagonismo a ser dado ao discurso oficial sobre a matéria. As conclusões do estudo lembram que apesar de o crime continuar a ser o mais associado à cobertura mediática da imigração, verifica-se nos jornais “um progressivo interesse pela identidade e cultura” destas comunidades. Nos telejornais, pelo contrário, são mais difundidas as abordagens dos imigrantes e minorias relacionados com mafias, prostituição, violência e também o terrorismo o que, segundo conclui esta equipa de investigação, dá a estas comunidades “uma visibilidade e uma percepção pública muito negativas”. O director da OCPM lamentou ainda que os Media tenham abandonado a questão das segundas gerações, “silenciando os problemas dos filhos dos imigrantes”. O IV Encontro Nacional de Apoio Social ao Imigrante, que a Agência ecclesia, Caritas Portuguesa e Obra Católica Portuguesa de Migrações organizaram em Janeiro passado, davam conta que “algumas notícias sobre estes temas estigmatizam a imigração", difundindo "imagens desfocadas e narrativas distorcidas ou seleccionadas" e "desvirtuando a realidade".


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