Nacional

Novos olhares sobre os sem-abrigo

Octávio Carmo
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Casal francês que fez a opção de viver na rua conclui visita a Portugal

Durante nove dias, o casal francês Michel Collard e Collette Gambiez apresentou, no nosso país, o seu testemunho de vida junto dos sem-abrigo, baseado na opção de viver na rua e deixar-se encontrar e receber por eles, numa presença extraordinariamente amiga e fraterna. A convite da Cáritas Portuguesa e em parceria com as Paulinas Editora, o casal contactou com várias instituições que dão apoio aos sem abrigo, visitando algumas das suas valências. Em entrevista à Agência ECCLESIA, no final deste percurso que ontem se concluiu, Michel Collard e Collette Gambiez manifestaram a sua satisfação pelo acolhimento que lhes foi prestado no nosso país, assegurando que a sua presença pretendeu ser “uma interpelação†para que, na assistência aos sem-abrigo, o acento seja colocado no que é “essencialâ€. Segundo os dois, esta é uma população que não é muito solidária entre si e que, por isso, nunca chega a constitui-se em comunidade. "Não gostam de partilhar os seus problemas e não gostam de ver nos outros os seus próprios problemas", explica Colette. “As principais formas de forma de assistência que existem, hoje em dia, precisam de alternativas, que não vejam estas pessoas simplesmente como receptáculos, mas como verdadeiros parceiros, com direito a uma opiniãoâ€, acrescenta. Michel Collard sublinha a necessidade de “partilharâ€, seja uma refeição, sejam outros momentos, com os sem-abrigo. É importante que as organizações que distribuem alimentos e outros bens a esta população o faça, portanto, numa atitude de partilha, comendo e convivendo com eles Esta nova postura passa, segundo os dois, por mudanças profundas, relacionadas não só com os locais de acolhimento como com a distribuição de comida. “Hoje em dia, é desumano distribuir a sopa em plena rua, por exemplo, é preciso erradicar essa práticaâ€, aponta Collete Gambiez. Outro caminho a seguir seria a criação de espaços de acolhimento, onde os sem-abrigo possam ter alguém com quem desabafar os seus problemas. Os grandes dormitórios públicos são outro dos alvos das críticas do casal francês, que prefere a criação de pequenas casas de acolhimento, onde quem está na rua possa viver em grupos reduzidos. Em jeito de balanço, Colette assegura que a passagem por Portugal serviu para sensibilizar as associações que vieram ao seu encontro, as quais “tiveram oportunidade para ouvir as nossas reflexões e as nossas interpelações; o acolhimento foi positivo, agora esperamos que haja lugar para a transformação†Maria da Glória, membro dos órgãos sociais da Comunidade Vida e Paz – que acolheu este casal em Lisboa – considera que esta visita ajudou a “reflectir sobre os meios de ter uma melhor actuação junto dos sem-abrigo, vendo a realidade de outra maneiraâ€. Na rua por opção A opção de viver na rua nasceu, segundo Michel Collard da vontade de “actualizar as propostas do espírito Franciscanoâ€, Ordem à qual pertencia quando, há 20 anos, começou esta aventura. Colette Gambiez, enfermeira de profissão, vive na rua há 10 anos. As vidas de Michel Colard, de 58 anos, e Colette Gambiez, de 47 anos, cruzaram-se há cerca de 13 anos e desde essa altura até agora as suas vidas fazem-se juntamente com a de muitos sem-abrigo franceses e belgas Juntos renunciaram a qualquer tipo de bem material e decidiram partilhar o seu dia-a-dia com os sem-abrigo. "Tratou-se do nosso desejo de partilhar a nossa vida e escolhemos os sem-abrigo, porque são os mais abandonados e os mais desprezados", explicou Michel. “Não queremos que todos façam o mesmo que nós, mas que, através da nossa experiência, cada um possa tomar consciência da necessidade de um compromisso pessoal, nos locais onde vive, não esquecendo o coração, a pessoaâ€, conclui Colette Gambiez. Esta caminhada já deu origem a dois livros, um dos quais acaba de ser editado em Portugal, aproveitando a visita do casal francês. O livro, intitulado "Quando o Excluído se torna o Eleito", é o resultado de muitos anos de contacto com esta população e traz não só uma narração pormenorizada da vida de um sem-abrigo como deixa pistas para a compreensão e resolução deste problema social, ao mesmo tempo que lembra que ser sem-abrigo não é uma escolha livre, mas sim a consequência de uma série de ocorrências. Este é um livro-testemunho, rico de reflexões e análises, que se dirige a todos: transeuntes confrontados com a mendicidade, profissionais e voluntários empenhados no trabalho social, responsáveis políticos, etc.


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