Onde falhou (ou acertou) Mel Gibson? Agência Ecclesia 11 de Março de 2004, às 17:45 ... “A Paixão de Cristo†segundo Mel Gibson, que hoje se estreou nas salas portuguesas, é um filme que tem mobilizado os Media e a opinião pública em geral, que não se cansa de falar em polémica. A obra do realizador australiano possui uma grande carga dramática, da qual ressaltam essencialmente as imagens chocantes, de muita violência. Francisco Perestrelo, crÃtico cinematográfico e habitual colaborador da Agência ECCLESIA, considera que “este é um filme de grande violência, como de grande violência foi a Paixão de Cristo, absolutamente brutalâ€. Este especialista, director do Centro de Documentação do Secretariado do Cinema e do Audiovisual, Lda (Cinedoc), recorda, no programa ECCLESIA, que as obras cinematográficas anteriores têm procurado rodear o problema da violência, “ignorando os aspectos mais duros para que o filme não venha a chocarâ€. Como ler é bem diferente de ver, têm entendido os cineastas que não será apropriado fotografar, em toda a sua crueza, a narrativa evangélica, sobre risco do filme produzido deixar de ser acessÃvel à generalidade do público. “A Paixão de Cristo é chocante e Mel Gibson adoptou um processo completamente diferente, que é mostrar a realidade em toda a sua crueza, de uma forma directa, sem esconder nenhum aspecto humano da figura de Cristoâ€, avança. Em relação ao propósito de fidelidade à narrativa evangélica, assumida por Gibson na escolha das lÃnguas faladas no filme (latim e aramaico), o Pe. Carreira das Neves, especialista em Sagrada Escritura e professor da UCP, assegura que “estamos na presença da Paixão do Messias segundo Mel Gibsonâ€. “Há muitos registos a respeito da morte de Jesus, mas a crucifixão é sempre entendida como algo terrÃvel. Flávio Josefo, que relata a guerra contra os Romanos, escreve que houve dias em que os Romanos crucificavam 500 judeusâ€, recorda. A abordagem de Gibson aos dados da Paixão tem, para o biblista o mérito de “tratar o tema da crucifixão com toda a sua crueldade, o que corresponde a históriaâ€, mas nem tudo está de acordo com os Evangelhos. “O filme começa de forma trágica, dramática, no Jardim dos Oliveiras, mas os evangelistas não narram que Jesus tenha começado imediatamente a sofrer a sua Paixãoâ€, contesta o Pe. Carreira das Neves. “As vestes que os Sumos Sacerdotes utilizam ao longo de todo o filme eram limitadas ao culto no templo, não eram utilizadas para julgar pessoasâ€, acrescenta. Como todas as Paixões de Jesus, também esta obra depende de uma tradição, que valoriza mais ou menos personagens como Maria. No caso de Gibson, foi o Evangelho de João e a presença de Maria junto a cruz que marcam o filme. “Mesmo assim, no Evangelho de São João, não há um relato jornalÃstico, mas teológico, pelo que não podemos roubar essa dimensão a esse sinalâ€, acrescenta. Ainda mais fora do vulgar é o tratamento dado a outra figura feminina, a mulher de Pilatos, que nos Evangelhos apenas é vislumbrada em Mateus, e muito de relance. “À luz da história poderÃamos colocar várias interrogações, mas que é um grande filme, éâ€, assegura Carreira das Neves. POLÉMICA=SUCESSO Desde a grande obra de Franco Zeffirelli, os filmes sobre Jesus têm tido como chave para o sucesso o facto de serem polémicos. De acordo com Francisco Perestrelo, “mesmo desde o inÃcio do cinema, os filmes sobre Jesus são um sucesso desde que tenham qualidade, mas a polémica atrai uma gama de público que não estaria interessada em ver a obraâ€. “Sou da opinião que este filme não apresenta razões para o suscitar da polémica com a comunidade hebraica, porque segue o espÃrito do Evangelho e não força a condenação do povo judeuâ€, acrescenta. Já a mensagem teológica, a retirar de qualquer relato sobre as últimas horas de Jesus, fica colocada em risco. “Há várias formas de falar sobre a Paixão, sobretudo aos cristãos que vivem o Mistério da Páscoa, e aquela violência de expiação pode levar as pessoas a um aprofundamento no bom sentido, mas também em sentido contrárioâ€, alerta o Pe. Carreira das Neves. Influência fortemente marcada na obra de Gibson, em relação a esta visão do sacrifÃcio, é o livro “A Dolorosa Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristoâ€, da Santa Ana Catarina Emmerrich (1774-1824). “Durante muitos anos houve a espiritualidade do sangue, que conhecemos das procissões de Sexta-feira Santa, em que o Senhor crucificado desfila diante de todos. Mas esta necessidade de sangue, de aplacar Deus, não é do Novo Testamentoâ€, revela o biblista. O drama humano, que muitos acreditam ser Divino, ultrapassa a História, mas é histórico. “Jesus morreu na cruz, Pilatos condenou-o, os Judeus entregaram-no a Pilatos, isso é o que se vai verâ€, conclui Carreira das Neves. Cinema Share on Facebook Share on Twitter Share on Google+ ...