Pobreza está a atingir novas camadas da sociedade Diário do Minho 11 de Outubro de 2008, às 11:54 ... O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza Portugal (REAPN) afirma que, actualmente, a pobreza «já deixou de ser aquela pobreza económica básica». «Ela já atingiu a classe média e está a atingir a classe académica e ex-funcionários de grandes empresas, que começam a ficar limitados, até na venda de bens, para poder subsistir. Isto começa a criar um certo pânico, porque ninguém sabe onde vai poder conter, ou não, a sua própria realidade», disse. Para o padre Agostinho Jardim Moreira, que ontem esteve em Guimarães para participar no II Encontro Regional do Norte de Pessoas em Situação de Pobreza, neste momento e perante a situação que se vive, «podem ir os anéis e os dedos», na medida em que tudo é imprevisÃvel e o futuro pode ser catastrófico. Segundo o sacerdote, são os pobres quem verdadeiramente sofre as consequências da crise que se instalou, e que tem originado, por exemplo, o aumento do preço dos bens alimentares. «Este é um processo complexo e há que estar atento e ver como é que vamos conseguir ajudar mutuamente. Creio que a grande resposta que posso dar enquanto presidente da REAPN é que devemos estar bem atentos uns aos outros para impedir os desastres catastróficos de desespero das pessoas e de desumanidade e temos de construir uma sociedade mais igualitária e mais fraterna», salientou. Por outro lado, realça ainda o padre Jardim Moreira, há também o problema do sobreendividamento das famÃlias, que contribui para o aumento da pobreza em Portugal. Na sua perspectiva, as pessoas estão tão desesperadas que, não vendo nenhuma luz, aceitam qualquer coisa que lhes dê crédito. «Mas, isto é o fim do seu processo e pode ser o seu suicÃdio. As pessoas deviam ter cuidado. Não deviam tomar nenhuma posição sem ouvir alguém que lhes desse confiança, ou dar conselhos, antes de tomar decisões que possam comprometer definitivamente o seu futuro», acrescenta. Questionado se há pobreza envergonhada, o presidente da REAPN responde afirmativamente, realçando que ninguém gosta de ser pobre, a não ser aqueles que já perderam tudo, inclusive a própria dignidade e sentem que não são respeitados por ninguém. «Hoje, qualquer pessoa da classe média não tem prazer nenhum em ser reconhecida como alguém incapaz de poder participar na sociedade, e é capaz de manter o fato limpinho e manter o carro a brilhar e depois comer alimentos muito mais baratos para poder subsistir e manter o seu dia-a-dia sem atingir gravemente os recursos familiares que tem», sustentou. Encontro regional Entretanto decorreu ontem no auditório da Associação Fraterna, em Guimarães, o II Encontro Regional do Norte que reuniu pessoas vindas dos distritos de Aveiro, Braga, Bragança, Porto, Viana do Castelo e Vila Real, com o objectivo de reflectirem sobre a sua situação actual e avaliar a eficácia das polÃticas nacionais de inclusão. «Essencialmente reunimos aqui pessoas que são pobres, excluÃdas da sociedade, que vivem na dependência, muitas vezes de subsÃdios, e que vêm em nome pessoal dos vários distritos e também representam os grupos de distrito. Estas pessoas vieram pôr em comum quais são as perspectivas que cada uma sente em relação à s polÃticas actuais, se elas respondem ou não à s necessidades humanas», disse o presidente da REAPN. Para além de Guimarães, aconteceram também ao longo do dia de ontem outros encontros regionais em Viseu e em Beja, cujas conclusões vão agora ser reunidas num documento único a apresentar publicamente no próximo dia 17 de Outubro, data em que se assinala o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Esse documento, salientou o padre Jardim Moreira, pretende ser a voz de todas estas pessoas desfavorecidas, que será apresentado à comunicação social e aos responsáveis polÃticos no dia 17 de Outubro. «Nesse dia, em vez de haver só discursos sobre o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza vindos da Assembleia da República, nós vamos também apresentar uma proposta concreta que é a proposta dos próprios injustiçados», salientou. É preciso um olhar muito claro sobre a injustiça que o paÃs produz «Devemos ter um olhar muito claro sobre a injustiça que o paÃs produz porque a pobreza é o resultado de uma injustiça», disse o presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal, realçando que esta será a sua grande mensagem para o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, que se celebra a 17 de Outubro. Para o padre Agostinho Jardim Moreira, que falava à margem do Encontro Regional do Norte, que decorreu em Guimarães, «não se pode continuar a pensar em se construir um paÃs assente em injustiças e no esquecimento que o ser humano é a única razão de ser de qualquer projecto ou economia». Aos jornalistas, o sacerdote defendeu ainda que o Governo deve criar um Plano Nacional de Luta Contra a Pobreza, realçando que a pobreza não se acaba com a atribuição de subsÃdios. O presidente da Câmara de Guimarães, que esteve presente na sessão de abertura do encontro, considerou que a dimensão da pobreza já atingiu um lastro de tal ordem que, «por muita boa vontade que nós tenhamos, somos sempre frágeis no que toca à s soluções que possamos encontrar para remediar este problema. Infelizmente, nós não somos capazes de ir além do remedeio», disse. Pastoral Social Share on Facebook Share on Twitter Share on Google+ ...