Fernando Echevarría nasceu em 1929. Estudou Filosofia e Teologia. Viveu muitos anos em Paris, onde se ocupou na área do ensino. A sua poesia começa a afirmar-se nos finais dos anos 50, marcada inicialmente por uma grande concentração metafórica que acompanhava uma espécie de respiração polifónica dos motivos. Para abrigar-se progressivamente numa admirável depuração verbal, tirando partido das elipses, das sugestivas contracções discursivas, das suspensões diante do sentido. A palavra de Echevarría é um idioma decantado quase até ao limite da abstracção. Mas pelas cesuras dessa língua o fulgor brilha, recôndito e intensamente presente.
Das suas obras mais recentes destacam-se: Introdução à Filosofia (Poesia), 1981; Geórgicas (Poesia), 1998; Uso de Penumbra (Poesia), 1995; Introdução à Poesia (Poesia), 2001.
“Cada dia nos dê o nosso pão
e comê-lo nos abra aquela casa
de inteligência e coração
onde sentar-se é mesa rasa
de ver quantos não estão
sentados nessa casa.
E comer se ilumina, e abre-se portão,
ou qualquer coisa de brasa
entra no movimento e na palavra,
como se cada gesto e cada som
fosse uma leitura que se abra
dentro da história de não haver senão
a de estarmos à mesa da palavra,
transparentes, à luz de se partir o pão.
Iluminar-nos ilumina
outros iluminar-se.
Mais longe que a pupila
e numa base
laboriosamente cristalina
onde se passe
glorioso pensar e obra divina
quanto a nós e em nós somos análise.
Análise lendo pluralíssima
a actividade cintilante
que quase nem se timbra,
menos que sombra quase
de a lermos, repentina,
mas insondável base.
É um silêncio que se empolga activo.
Avassala a ignorância de arredores
e os empurra para o seu sem sítio.
Ou para onde o esquecimento os tome.
Silêncio em fase. De que vai surdindo
o ponto de negrume, a lomba informe
a adensar a dureza de corisco.
O surdo estrépito iminente. De onde
o arabesco desobstrui o ritmo
e abre a solidão que o desenvolve.
E é o silêncio. O luminoso zimbro
abstracto, imóvel.
E a decifrar, não só o enigma, o signo
em que esse enigma reencontra o nome.
É doce envelhecer quando o que avança
é ir recrudescendo a inteligência.
Entra-lhe o mundo no vagar. Decanta
o seu volume inteiro de contenda.
Transporta-se. E entrega na palavra
a inteligível criação. Entrega
o desenvolvimento. O pulso. A trama
que ajustam sua refundação aberta.
E a doçura de se ir vendo alarga
o envelhecimento a quase ciência.
Uma ciência onde o enigma é alma.
E onde o mundo contunde. Insiste. E pesa”.
Observatório da Cultura