Peregrinação Internacional do Migrante e Refugiado chama a atenção para as injustiças por detrás da mobilidade humana
O bispo D. Januário Torgal Ferreira, presidente da comissão episcopal das migrações, criticou quinta-feira em Fátima o facto de Portugal ainda não ter assinado a Convenção Internacional sobre a protecção dos direitos dos trabalhadores migrantes e suas famílias.
"Porque razão o nosso país não assinou até hoje, por exemplo, a Convenção Internacional sobre a protecção dos trabalhadores migrantes e membros das suas famílias, convenção esta adoptada pela ONU em 1991 e que entrou em vigor no ano passado. Porquê?", questionou D. Januário.
O bispo defendeu "a mudança da nossa mentalidade nestas andanças da hospitalidade", uma vez que "os desafortunados ocupam o primeiro lugar no banquete do Evangelho" e a imigração "só se controla dando todos os direitos aos trabalhadores estrangeiros e suas famílias".
Perante uma assembleia de milhares de fiéis católicos, em grande parte emigrantes portugueses, D. Januário Torgal Ferreira disse ser difícil entender que pessoas que vêm para Portugal apenas em busca de oportunidade "de ganhar o pão" não tenham "obtido bilhete de entrada", enquanto "os mais responsáveis prosseguiram o seu discurso, proclamando o humanismo de maneiras e o sentido da responsabilidade, impedindo o avanço dos pobres".
"Se há um apelo de fraternidade perante quem emigra, há um clamor em vista de uma nova ordem Nacional e Internacional, onde o cumprimento da justiça seja de tal monta que não haja necessidade de buscar noutro país o que não há no próprio", frisou.
Na ocasião, D. Januário Torgal Ferreira alertou, como já fizer em entrevista à ECCLESIA, para o facto de, desde 1990, "em confronto com os cerca de quinhentos mil estrangeiros que entraram no nosso país, cerca de trezentos mil portugueses" terem saído de Portugal "em novos fluxos migratórios".
Emigrantes evangelizadores
Os emigrantes são, para a Igreja Católica, os novos evangelizadores, considerou ontem em Fátima o presidente do Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, Cardeal Stephen Fumio Hamao.
Segundo o responsável da Santa Sé pelas migrações, os emigrantes actuais criam situações que “obrigam ao diálogo ecuménico e inter-religioso”, ao mesmo tempo que os novos fluxos migratórios “podem ajudar a ultrapassar questões de racismo e xenofobia”.
Em conferência de imprensa no Santuário de Fátima, onde preside às cerimónias da Peregrinação do Migrante e Refugiado, D. Stephen Fumio Hamao sublinhou ainda que os emigrantes católicos “têm capacidade de dar testemunho” e, através dele, “converter os outros”.
Quanto à postura da Igreja Católica perante o fenómeno das migrações, aquele cardeal disse que “tem criado estruturas pastorais para o serviço religioso dos migrantes, tem elaborado modelos operativos, em vista de uma presença mais incisiva no território e na construção de comunidades integradas e tem exposto uma dimensão universal e missionária à acção pastoral, no momento em que o pluralismo étnico e cultural se está tornando traço característico da sociedade moderna”.
Por seu turno, o Pe. Ângelo Negrini, do mesmo Conselho Pontifício, defendeu que a pastoral da Igreja para o sector tem de assentar em dois planos: o religioso, com base no exemplo dos cristãos; e o social, económico e político, com a defesa de uma sociedade que sublinhe a igualdade entre as pessoas sem ignorar as diferenças culturais.