Presidente da ERC apela a «ética das audiências»
Debate sobre mensagem de Bento XVI lança celebração do Dia Mundial das Comunicações Sociais
Neste debate, promovido pela CECBCCS na UCP, Azeredo Lopes destacou a necessidade de não considerar como tal “tudo que é apresentado como jornalismo”, advertindo para o “efeito de contaminação” entre informação e espectáculo, negócio e serviço fundamental de interesse público.
Para José Manuel Fernandes “não há fronteiras definidas, porque temos de comunicar a informação, lógicas e regras para comunicar bem são necessárias ao ofício de informar”.
Neste campo, por várias vezes, a pressão de “ser o primeiro” faz passar por cima de alguns critérios éticos. “Apesar de tudo, mesmo em directo, somos mediadores”, defendeu este responsável, pedindo um “tempo de reflexão mínima”
A médio prazo, indica, “essa coerência acaba por pagar positivamente”, ao contrário da “corrida pela caixa”. A este respeito, o director do “Público” indicou que bastaria “olhar para a sucessão de títulos que foram manchete de jornal sobre o caso McCann e as contradições e os excessos em que se entraram, como se não houvesse memória”.
Já o presidente da ERC indicou que o “mito da liberdade comunicacional”, global e quase deificada, não deve evitar uma reflexão sobre o “excesso de informação”, que impede de “destrinçar o produto plausível” e que pode, “mais do que tornar-nos mais capazes, mais informados, tornar-nos mais incapazes”.
“O mito da proximidade do outro é algo que nos pode levar, precisamente, a desconhece-lo”, acrescentou, frisando que “a presunção do conhecimento leva, muitas vezes, à indiferença”, sem gerar processos colectivos de intervenção.
“Não acredito nas virtudes miríficas que advêm da ideia que cada um de nós é um interventor num espaço público cada vez mais universal”, disse Azeredo Lopes.
Também D. Manuel Clemente insistiu na ideia de que “saber só não chega”, referindo-se, como exemplo, às situações do Darfur e do Tibete.
Novas perspectivas da Igreja
Na abertura do debate, D. Manuel Clemente aludiu à “relativa novidade” presente na mensagem do Papa, que é a de considerar os meios de comunicação como “parte constitutiva” dos processos em curso na sociedade actual. Azeredo Lopes quis também sublinhar esta “concepção nobre da comunicação social, promovida de instrumento a algo constitutivo”.
O Bispo do Porto indicou que este “carácter mais essencial” dos media, que traz uma “responsabilidade acrescida”, salientando a contribuição dos Meios de Comunicação Social em campos como a alfabetização ou os avanços da democracia.
Apesar desses contributos, existem “ambiguidade”, dado que há “riscos” de que os media se transformem em “sistemas” subordinados a interesses particulares, refere o presidente da CECBCCS.
Este responsável citou algumas passagens da mensagem papal, nas quais Bento XVI escreve, entre outras coisas, que “a humanidade encontra-se hoje numa encruzilhada. Vale também para os media aquilo que escrevi, na Encíclica Spe salvi, sobre a ambiguidade do progresso, que oferece inéditas potencialidades para o bem, mas ao mesmo tempo abre possibilidades abissais de mal que antes não existiam”.
Para D. Manuel Clemente, estamos a debater, no fundo, uma questão antropológica, não uma questão interna da Igreja ou técnica.
“O papel que os instrumentos de comunicação assumiram na sociedade é já considerado parte integrante da questão antropológica, que surge como desafio crucial do terceiro milénio”, refere explicitamente a mensagem de Bento XVI.
O próprio Papa considera que “é indispensável que as comunicações sociais defendam ciosamente a pessoa e respeitem plenamente a sua dignidade. São muitos a pensar que, neste âmbito, é actualmente necessária uma «infoética» tal como existe a bioética no campo da medicina e da pesquisa científica relacionada com a vida”.
“O quadro de referência é a pessoa humana”, sintetiza D. Manuel Clemente, para quem “todos nós estamos envolvidos, de alguma maneira, na comunicação social”.
Bento XVI acena a esta realidade ao escrever que “todos, nesta época da globalização, somos utentes e operadores de comunicações sociais. Os novos media, sobretudo os telemóveis e a Internet, estão a modificar a própria fisionomia da comunicação”.
No final dos trabalhos, Paulo Rocha, director da Agência ECCLESIA, apresentou uma edição especial do semanário desta Agência, onde as notícias, as reportagens, as entrevistas e as opiniões têm como temática a presença da religião nos media e da Igreja nos meios de comunicação.
Com cor e fotografia, a Edição Especial 2008 da Agência Ecclesia procura ser também um documento de referência para a Igreja e para os media no que respeita ao processo de comunicação nos tempos actuais.
Mensagem de Bento XVI para o 42.º Dia Mundial das Comunicações Sociais
• «Os meios de comunicação social: na encruzilhada entre protagonismo e serviço. Procurar a Verdade para compartilhá-la»
Comunicações Sociais









