Igreja Católica enfrenta poderes estabelecidos no Brasil e o mundo desperta para dramas esquecidos
Quando ontem, às 18 horas locais (22 horas em Lisboa), se deu a libertação dos Missionários da Consolata reféns há três dias em Contão já a opinião pública se familiarizara com as lutas dos indígenas e dos grandes fazendeiros brancos por assumirem o controlo de uma área que corresponde a 1.651.300 campos de futebol, localizada numa zona encravada entre a Guiana e a Venezuela.
A maioria da população indígena defende a própria cultura que conserva muitos elementos próprios das primeiras comunidades cristãs: posse comunitária da terra, trabalho em equipa, partilha de bens, autoridade como serviço, cuidado especial para com as crianças e os idosos. Devido à decisão da Igreja local de optar pelos povos indígenas, os missionários são perseguidos, caluniados, ameaçados de morte, pelos latifundiários e pelas autoridades locais que consideram os índios pessoas “preguiçosas, ignorantes e inúteis” e, portanto, destinadas a desaparecer.
O Irmão João Carlos Martinez, e os Padres Ronildo Pinto e César Avellaneda, viram anos de trabalho discreto passar para as primeiras páginas. Os missionários da Consolata, juntamente com outros promotores da campanha «Nós Existimos», recolheram assinaturas num abaixo-assinado entregue ao Governo Federal do Brasil, onde solicitavam a homologação da terra indígena Raposa Serra do Sol, a aprovação do Estatuto dos Povos Indígenas, a punição dos envolvidos no escândalo de corrupção conhecido como “folha dos gafanhotos” e a não-concessão de incentivos fiscais para os latifundiários plantadores de arroz irrigado, soja e acácia mangium, assim como para a instalação de uma fábrica de pasta de celulose em Roraima.
O verdadeiro “estado de sítio” que está a ser imposto por grupos de interesses económicos e políticos, com a conivência e cumplicidade do governo estadual de Roraima começou na madrugada do dia 6 com a destruição da missão Surumu e o sequestro e espancamento dos três missionários. Simultaneamente dezenas de tractores, carretas e camiões foram sendo posicionados em meia dúzia de lugares nas principais vias de acesso e saída do Estado e da Capital, Boa Vista.
Alguns textos tratam este tema como “conflito entre índios”, embora as organizações representativas dos indígenas tentem esclarecer que “não somos nós os interessados, organizadores e responsáveis por esta onda de manifestações contra um dos direitos legítimos, constitucionais e inquestionáveis, que é a homologação e garantia da terra.”
A reacção contrária a estas pretensões, liderada pelos rizicultores, acontece depois declaração do Ministro da Justiça do Brasil, Márcio Thomaz Bastos, que em 23 de Dezembro de 2003 anunciou a decisão do presidente Lula da Silva assinar o decreto de homologação da reserva indígena Raposa/Serra do Sol ainda durante este mês. Uma decisão que está prometida e consagrada na Constituição brasileira desde 1985.
Em 1998, o então ministro da Justiça, Renan Calheiros, declarou a Raposa/Serra do Sol, no noroeste de Roraima, posse permanente dos índios macuxi, uapixana, ingaricó e taurepangue. Pela lei, o presidente Lula da Silva pode assinar a homologação a qualquer momento.
O Pe. António Fernandes, superior provincial dos Missionários da Consolata, declarou que “estes acontecimentos mostram que estamos no caminho certo, dentro da opção evangélica pelos pobres e excluídos. Por isso, não nos intimidamos ou vamos desistir do trabalho.”