Vaticano

Bento XVI estuda visita à Turquia

Octávio Carmo
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O Vaticano confirmou hoje que estão a decorrer negociações com o Governo de Ancara para uma visita de Bento XVI à Turquia no mês de Novembro. O convite para Bento XVI se deslocar à Turquia foi feito em Junho, pela Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I. Os objectivos do Papa são de carácter pastoral e ecuménico, mas a viagem tem outras implicações de carácter político. Há cerca de um ano, o então Cardeal Ratzinger tinha-se manifestado contra a integração da Turquia na UE. O Cardeal Walter Kasper, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, declarou esta manhã aos jornalistas que “estão em curso negociações com o Governo de Ancara”, explicando que para visitar um país, o Papa precisa também do convite das autoridades civis. Este responsável tem reafirmado o desejo de Bento XVI em se deslocar à Turquia no dia da festa litúrgica mais importante para Patriarcado Ortodoxo, a 30 de Novembro - festa de Santo André. A visita teria particular importância do ponto de vista ecuménico, uma das prioridades do Pontificado de Bento XVI. O Patriarca Bartolomeu I é considerado o “primus inter pares” e líder espiritual dos 200 milhões de cristãos ortodoxos, mas não é o “Papa” da Igreja Ortodoxa, dado que nela os bispos têm todos o mesmo lugar e o primado de Constantinopla é apenas de honra, não de jurisdição. O caminho para a comunhão entre Roma e Constantinopla foi cimentado no final do passado mês de Junho com novos gestos que vincam a vontade de Católicos e Ortodoxos em assumir o compromisso de caminhar rumo à unidade “na caridade e na verdade”. A celebração de São Pedro e São Paulo (29 de Junho), as traves mestras da Igreja primitiva, foi a ocasião para que Bento XVI e o Patriarcado ecuménico de Constantinopla trocassem impressões sobre a possibilidade de reiniciar o diálogo teológico entre as duas Igrejas, após 12 anos de interrupção. Apesar de todos reconhecerem a importância deste diálogo, a sua verdadeira dimensão requer um olhar sobre a história: a separação das duas comunidades cristãs foi consumada em 1054 e só conheceu melhorias nas últimas quatro décadas. O problema fundamental é de carácter teológico, o primado de Pedro. Bento XVI, teólogo de referência, sabe muito bem quais são as diferenças que separam as duas Igrejas e não foge ao tema. No Vaticano, quando recebeu a delegação de Constantinopla, falou do primado do Papa “como um primado de serviço à comunhão católica (universal)” e assegurou que a unidade que procura desde o início do seu pontificado, entre todos os cristãos, não é “nem absorção, nem fusão”. Bartolomeu I foi sempre um parceiro de diálogo privilegiado de João Paulo II, bem ao contrário do Patriarca Ortodoxo de Moscovo, Alexis II. João Paulo II apresentou ao Patriarcado de Constantinopla, durante o seu pontificado, um pedido público de desculpas pelo ataque dos cruzados em 1204 e devolveu as relíquias de São João Crisóstomo e de São Gregório de Nazianzo, Doutores da Igreja. No dia 1 de Julho de 2004, o Papa polaco e o Patriarca Ortodoxo de Constantinopla assinavam no Vaticano uma declaração comum onde assumiam “a plena vontade de continuar no caminho rumo à plena comunhão entre nós, em Cristo”. Apesar dos “muitos passos positivos” que as duas partes assinalavam, a declaração comum não esconde os obstáculos que o caminho ecuménico tem encontrado desde o histórico encontro entre Paulo VI e Atenágoras I, em Jerusalém, no ano de 1964, em que se levantaram as excomunhões recíprocas.


Bento XVI