Vaticano

Construção europeia espera novas respostas

Octávio Carmo
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O “não” francês no referendo ao Tratado Constitucional Europeu veio travar a euforia gerada pelo alargamento/reunificação da Europa. Aquilo que Comissão dos Episcopados da UE (COMECE) já tinha classificado como perda de entusiasmo dos seus povos “pela causa europeia e pela ideia de fraternidade entre todos” é confirmado pelo resultado deste Domingo. No seu recente documento “O Futuro da UE e a responsabilidade dos católicos”, a COMECE referia que o projecto da União Europeia tinha necessidade de ser vivificado segundo o espírito que esteve na sua origem, em 1950. O voto francês tem, neste contexto, de ser levado muito a sério, ficando por perceber como é que se pode explicar, com sucesso, um texto tão técnico como este Tratado Constitucional aos europeus, sob pena de todo o projecto sucumbir às mãos do descontentamento e da desconfiança das populações. As ideias políticas, culturas e éticas da Nova Europa, bem como modelos económicos e de protecção social têm de ser colocados sobre a mesa. Qual o figurino que preside à construção europeia, num momento em que a UE enfrenta grandes desafios mundiais, é a discussão que se impõe. Os secretários das 34 Conferências Episcopais da Europa reuniram-se na Suíça, de 26 a 30 de Maio, precisamente no momento em que todos estes temas fervilhavam na opinião pública. Para D. Carlos Azevedo, secretário da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), é importante compreender “quais as implicações económicas desse figurino e as suas consequências sociais para a Europa”. O prelado mostra-se preocupado com o “desemprego crescente”, numa espiral que não tem tendência a parar. Nesse sentido, assegura que a Igreja irá “continuar a fazer sentir junto de Bruxelas a sua visão do homem”. O encontro promovido pelo Conselho das Conferências Episcopais da Europa abordou o insucesso, no caso francês, do processo de ratificação da Constituição, esperando que o mesmo possa levar, apesar de tudo, a um despertar do espírito que esteve na origem da União Europeia. “Passados 50 anos, importa saber qual é o modelo para a construção da Europa: o que nos pareceu grave é que os homens que lideram a UE não sabem o que fazer após o ‘não’ francês”, revela D. Carlos Azevedo. “Os católicos, cidadãos de pleno direito nesta Europa, devem propor perspectivas de compromisso com essa sociedade, marcando a sua forma de ver o ser humano”, acrescenta. Desafios O alargamento da UE a Leste foi considerado, por estes países, como uma verdadeira reunificação do Velho Continente, em termos culturais, políticos e espirituais. Os dois “pulmões” da Europa, como João Paulo II gostava de lhes chamar, são indispensáveis para um bom funcionamento da União. A revisão das perspectivas financeiras da UE representa, neste sentido, um texto decisivo. A já referida declaração da COMECE aborda esta questão de um ponto de vista ético e social, alertando para a necessidade de esperar negociações difíceis. Para além destas considerações de ordem económica e política, é claro que falta ainda fazer muito para desenvolver os contactos entre os povos da “velha” e da “nova” UE, relações estas marcadas por bastante desconfiança, sobretudo no capítulo do emprego. Antes do referendo em França, o secretário-geral da COMECE, D. Noel Treanor, aludia à “identidade viva” da Europa, apelando a um reconhecimento claro da herança cristã. Sem esta força, percebe-se agora, não há nada mais que garanta que a Europa esteja ao serviço do bem comum e não de interesses particulares. A COMECE defende a aprovação do Tratado, considerando que este “constitui um avanço significativo” e vai dar origem “a um sentimento de cidadania europeia”, mas o desafio da Europa parece não cativar os seus habitantes. As Igrejas cristãs em França, que desde cedo se colocaram ao lado do “sim”, pediam aos seus fiéis que não esquecessem que “esta Europa trouxe-nos, antes de mais, a paz que era o primeiro desejo dos seus fundadores”. A “receita” apresentada pelos organismos cristãos pode servir de inspiração a quem de direito: desenvolvimento económico, mas também o desenvolvimento de um modelo social - cuidados de saúde, protecção social e educação são acessíveis a todos.


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