Vaticano

Custódia da Terra Santa descontente com decisão do Supremo Tribunal de Justiça israelita

Octávio Carmo
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Tribunal não pôs em causa a legitimidade do muro de segurança na Cisjordânia

O porta-voz da Custódia Franciscana da Terra Santa contesta a decisão do Supremo Tribunal de Justiça de Israel, que esta quarta-feira obrigou o governo israelita a modificar o traçado do muro de segurança na Cisjordânia. Para o Pe. David Jaeger a decisão é “uma faca de dois gumes”. Para o tribunal, o traçado do muro nesta área “viola fortemente o direito da população e sua liberdade de movimentar-se” e “a vida do povo está gravemente prejudicada”. O colectivo de três juízes decidiu, por unanimidade, dar provimento a uma petição apresentada por 20 palestinianos, os quais sustentavam que, a manter-se o traçado previsto na região a norte de Jerusalém, milhares de palestinianos ficariam impedidos de se deslocarem para as suas terras, escolas e trabalhos. Nesse sentido, a mais alta instância israelita ordenou a alteração do traçado do muro naquela zona, numa extensão de 30 quilómetros, sustentando - numa inédita declaração - que o direito de Israel à autodefesa não lhe dá o direito de lesar os direitos da população palestiniana. O tribunal, contudo, não pôs em causa a existência do muro, cuja construção Israel justifica com a necessidade de evitar a infiltração de bombistas-suicidas no seu território. Para o porta-voz da Custódia Franciscana da Terra Santa, “esta decisão representa uma importante derrota para a cúpula militar, porque nega que o traçado do muro seja o único compatível com as exigências de segurança, mas, por outro lado, não nega a legitimidade do muro enquanto tal”. “Justamente ao deslegitimizar uma parte do traçado do muro o Supremo Tribunal poderia ajudar o governo a defender-se das críticas externas”, alerta o religioso, em declarações à Rádio Vaticano. Dentro de dez dias, o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), sediado em Haia, deverá anunciar a sua decisão sobre uma moção contestando a legitimidade de Israel para construir o muro. Israel contesta, porém, a competência do tribunal para se pronunciar sobre a matéria, que diz ser uma questão de segurança interna, pelo que boicotou as audiências daquela instância. O Pe. David Jaeger sublinhou que é quase impossível descrever os transtornos que o muro ocasiona: “separa os camponeses dos seus campos, as crianças da escola, os empregados dos seus postos de trabalho, os doentes do hospital”, relata. “O muro penetra no interior do tecido vivo de comunidades inteiras e destrói-o. Ao longo do traçado, há populações que se poderão ver efectivamente rodeadas pelo muro ou isoladas num gueto. É um cenário surrealista”, acrescenta.


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