Dossier China, um desafio Octávio Carmo 25 de Março de 2006, às 16:21 ... Entre a fidelidade e a negociação A criação do Bispo de Hong Kong como Cardeal terá sido, de todas as escolhas do Papa para o seu primeiro Consistório, aquela que mais interesse mediático suscitou. Pela primeira vez, há um Cardeal de Hong Kong enquanto território chinês e, como o novo Cardeal sublinhou, nem todas as reacções por parte de Pequim foram negativas. O Cardeal Joseph Zen é um profeta incómodo para o governo comunista, mas a sua figura é um sÃmbolo dos valores que não se podem sacrificar em nome da normalização das relações entre o Vaticano e China. Após o almoço de hoje com o Papa, no Vaticano, D. Zen sublinhou que a sua escolha foi “uma honra para o povo chinês†e que a púrpura que agora veste “lembra a disponibilidade de derramar o próprio sangue pela Igrejaâ€, como já aconteceu a muitos chineses. A questão de fundo reside, precisamente, no heroÃsmo dos fiéis da Igreja que, na China, permanecem fiéis ao Papa e a Roma. O regime chinês controla a Associação Patriótica Católica (APC) - com cerca de quatro milhões de seguidores -, nomeia os bispos do continente e recusa o reconhecimento da autoridade do Vaticano, que tem cerca de dez milhões de fiéis na chamada “Igreja clandestina†chinesa. Nos últimos meses, a APC lançou uma violenta campanha, destinada a evitar qualquer aproximação entre Pequim e o Vaticano. Vários contactos informais têm sido desenvolvidos desde que Bento XVI sucedeu a João Paulo II, fazendo do estabelecimento de relações diplomáticas com a China uma das suas prioridades, algo que a APC vê como um perigo para a organização. Encontrar uma pessoa que seja modelo para esses cristãos oficiais e para os “clandestinos†não seria fácil. O Cardeal Zen goza de um prestÃgio indiscutÃvel entre as duas comunidades, mas como o próprio reconheceu hoje à imprensa, as negociações decorrem sem que ele tenha conhecimento das mesmas: a sua postura de defesa intransigente da democracia e dos direitos humanos não o tornou muito popular entre os membros do governo chinês. A chave de solução poderá estar no processo de nomeação de Bispos para a China, mas nunca desautorizando o Vaticano. Qualquer cedência perante os homens do regime chinês poderia ser mal interpretada por todos aqueles que, ao longo de décadas, sofreram perseguição, foram presos ou enviados para “campos de reeducaçãoâ€, celebrando à s escondidas com receio das autoridades. Um caso semelhante aconteceu no pontificado de João Paulo II, com a comunidade greco-católica da Ucrânia, que sobreviveu na quase completa clandestinidade à repressão comunista na URSS. Apesar de saber que, ao acolher estes católicos, estaria a criar hostilidade duradoura junto da Igreja Ortodoxa da Rússia, nunca o Papa polaco sacrificou os chamados “uniatas†à negociação com Moscovo – abrindo um capÃtulo que ainda hoje é, provavelmente, o principal pomo de discórdia entre as duas Igrejas. O Consistório destes dias deixou um sinal claro do que deverá ser a opção de Bento XVI no caso da China. Durante a oração universal da cerimónia de setxa-feira, uma mulher rezou em chinês “por todos os que ainda sofrem por causa da sua fé cristã, para que na oração experimentem a certeza da comunhão de toda a Igreja e possam um dia colher, na alegria, aquilo que ao longo de muitos anos semearam com paciência e amorâ€. O coração de um lÃder não pode, como é evidente, ignorar a coragem e a fé de quem nunca renegou a sua fidelidade a Roma, nem mesmo durante as mais duras perseguições. Santa Sé Share on Facebook Share on Twitter Share on Google+ ...