Com o objectivo de defender uma ordem económica que seja alternativa ao modelo neolibral, cerca de 75.000 activistas de mais de cem países participarão a partir da próxima sexta-feira, 16 de Janeiro, no Fórum Social Mundial (FSM), uma reunião alternativa ao Foro Económico Mundial. O encontro decorre em Mumbai (antiga Bombaim), Índia.
Considerado a maior reunião internacional da sociedade civil, o FSM nasceu há três anos, em Porto Alegre, com a pretensão de criar um modelo que favoreça um crescimento económico com igualdade social. Desde então, o FSM fora realizado todos os anos na cidade brasileira.
A decisão de transferir este encontro para a Ásia - e, em especial, para a Índia, país marcado por agudas divisões económicas, sociais, religiosas e políticas - obedece à necessidade de chamar a atenção sobre as desigualdades que prevalecem nesse continente.
"Este ano o Fórum será muito mais asiático e pouco latino-americano", admitiu um membro do comité organizador, Candido Grybowski.
A reunião em Mumbai será inaugurada pelo Prémio Nobel da Paz 2003, a iraniana Shirin Ebadi e, durante seis dias, delegados de 5.000 organizações de 121 países participarão em centenas de conferências, seminários e mesas de diálogo, em que serão discutidos temas como "Terra, Água e Segurança Alimentar", "Militarismo, Guerra e Paz" e "Exclusão e opressão: religiosa, étnica e linguística", entre muitos outros.
O Prémio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, o líder anti-globalização José Bové, e representantes de organizações como o Movimento dos Sem-Terra do Brasil participarão no encontro.
ORIGENS E OBJECTIVOS
Artigo de Chico Whitaker, fundador do FSM:
No início de 1998 veio a público a proposta de um Acordo Multilateral de Investimentos – mais conhecido como AMI ou, em inglês, como MAI - que seria assinado pelos países mais ricos do mundo, para depois ser proposto aos demais países do mundo. Esse Acordo vinha a ser discutido em segredo no quadro da OCDE, com a pretensão de passar a ser uma espécie de Constituição mundial do capital, que lhe daria todos os direitos – especialmente no Terceiro Mundo, onde seriam feitos os "investimentos" - e quase nenhum dever.
O jornal francês Le Monde Diplomatique repercutiu então amplamente uma primeira denúncia feita nos Estados Unidos pelo movimento "Public Citizens", liderado por Ralph Nader, através de um artigo assinado por uma advogada desse movimento, Lori Wallach. A reacção aos absurdos que esse Acordo continha fez surgir um movimento social de protesto que, no final de 1998, levou a França a retirar-se das negociações, o que acabou por impedir que o Acordo fosse celebrado.
Uma das entidades animadoras dessa mobilização foi a ATTAC - inicialmente Associação pela Taxa Tobin de Ajuda aos Cidadãos, actualmente Associação pela Taxação das Transações Financeiras para Ajuda aos Cidadãos - que começava naquele momento a tomar forma na França, também a partir de uma proposta nesse sentido feita pelo mesmo Le Monde Diplomatique. O objectivo dessa associação - que hoje reúne duas dezenas de milhares de aderentes pela França fora, e fez nascerem outras ATTACs no resto do mundo - era lutar pela concretização da proposta de taxação dos movimentos do capital especulativo feita pelo Prémio Nobel de Economia, James Tobin, como forma de controlar sua actual liberdade absoluta de circulação em escala mundial, com as consequências que conhecemos.
A partir das articulações que esses factos ajudaram a fazer surgir por toda parte, entre aqueles que não aceitavam a possibilidade de um mundo inteiramente controlado pelos interesses do capital, foram sendo organizadas diferentes manifestações contrárias a esse tipo de globalização.
Ora, há uns bons vinte anos os donos do mundo se vinham encontrando num Fórum a que deram o nome de Fórum Económico Mundial, que se realizava em Davos, pequena e luxuosa estação de ski da Suíça. Organizado por uma entidade que hoje é uma grande empresa, ele reúne actualmente, uma vez por ano – além dos encontros regionais que começou também a promover. Pode-se dizer que é em Davos – que atrai correspondentes de todos os grandes jornais do mundo – que se constrói a teoria e se vai avançando na prática da dominação do mundo pelo capital, dentro dos parâmetros do neo-liberalismo.
Pois foi frente a tudo isso que estava acontecendo que alguns brasileiros pensaram que se poderia iniciar uma nova etapa de resistência a esse pensamento hoje hegemónico no mundo. Mais além das manifestações de massa e protestos, pareceria possível passar-se a uma etapa propositiva, de busca concreta de respostas aos desafios de construção de "um outro mundo", em que a economia estivesse a serviço do ser humano e não o inverso.
Economistas e outros universitários contrários ao neo-liberalismo já vinham realizando, na Europa, encontros que chamavam de Anti-Davos. O que se pretendia no entanto era mais do que isso. Propunha-se realizar um outro encontro, de dimensão mundial e com a participação de todas as organizações que vinham se articulando nos protestos de massa, voltado para o social – o Fórum Social Mundial. Esse encontro teria lugar, para se dar uma dimensão simbólica ao início dessa nova etapa, nos mesmos dias do encontro de Davos em 2001, podendo a partir daí repetir-se todos os anos, sempre nos mesmos dias em que os grandes do mundo se encontrassem em Davos.
Mais exactamente quem teve essa notável ideia – não sei se a teria discutido anteriormente com outras pessoas – foi nosso amigo Oded Grajew, que a colocou para mim quando nos encontramos na França, em Fevereiro deste ano. Resolvemos levá-la juntos ao director do Le Monde Diplomatique, que é também o Presidente da ATTAC na França, Bernard Cassen, para vermos se a ideia seria bem aceite fora do Brasil.
Cassen entusiasmou-se e fez a proposta de realizarmos o Fórum no Brasil. Para ele, teria que ser no Terceiro Mundo – pelo seu efeito também simbólico – e o Brasil estava entre os países com melhores condições de acolher um Fórum desse tipo.
De volta ao Brasil começamos a verificar quais entidades se dispunham a aceitar esse desafio e assumir essa enorme tarefa. Em 28 de Fevereiro reuniam-se em São Paulo representantes das 8 entidades que hoje já tem assinado um "Acordo de cooperação" para a realização do Fórum Social Mundial, cuja primeira edição foi realizada em Porto Alegre de 25 a 30 de Janeiro de 2001.
Por sugestão de Cassen, em fins de Junho uma comitiva das entidades viajou a Genebra, onde estariam reunidas, numa "cúpula" alternativa à Cúpula Social da ONU "Copenhagen + 5", grande parte das organizações que estavam a articular-se pelo mundo nas manifestações contra o neo-liberalismo.
De lá para cá estamos numa corrida contra o tempo, para asseguramos a presença de participantes de todo o mundo, com quotas fixadas para cada continente e tipo de actuação.
O Fórum não tem carácter deliberativo, e não se gastará tempo, portanto, para discutir as vírgulas de um documento final. Ele será o início de um processo de reflexão conjunta, a nível mundial, em torno dos quatro eixos abordados nos painéis das manhãs: a produção de riquezas e a reprodução social; o acesso às riquezas e a sustentabilidade; a afirmação da sociedade civil e dos espaços públicos; o poder político e a ética na nova sociedade. O que se pretende é abrir espaço numa reflexão também "globalizada", para a busca de alternativas ao modelo dominante.