Carta conjunta da Santa Sé sobre a pastoral dos migrantes
A Congregação para a Evangelização dos Povos e o Conselho Pontifício para a Pastoral para os Migrantes e os Itinerantes acabam de publica uma carta conjunta sobre a problemática das migrações, na qual defendem que a Igreja deve fazer deste fenómeno global “um veículo de diálogo e de anúncio da mensagem cristã”.
A missiva, datada de 7 de Outubro, é dirigida aos encarregados diocesanos da pastoral dos migrantes e tem a assinatura dos Cardeais Crescenzio Sepe, prefeito da Congregação, e Stephen Fumio Hamao, presidente do Conselho Pontifício. Ambos reconhecem que “as migrações actuais constituem o movimento humano mais vasto de todos os tempos”.
A experiência migratória, apesar de todas as suas dificuldades, “é também uma ocasião de nova evangelização e de missão”, com espaço para o diálogo inter-religioso, indicam.
A carta pretende promover a aplicação prática da instrução vaticana “Erga migrantes caritas Christi” (A caridade de Cristo para com os migrantes, 14 de Maio de 2004), pensada para responder “às novas necessidades espirituais e pastorais dos migrantes”. Os Cardeais convidam a encontrar no documento “sugestões e orientações pastorais e missionárias, fruto da experiência da Igreja universal, a serviço das pessoas envolvidas neste fenómeno”.
As migrações actuais englobam, segundo dados do documento, pelo menos 175 milhões de homens, mulheres, crianças e idosos, “que vivem fora do próprio país de origem como imigrantes económicos ou como refugiados ou requerentes de asilo, o que equivale a 2,9% da população mundial”.
Esta migração preocupa a Santa Sé, mesmo “quando é voluntária, regular ou legal, mas mais ainda quando os movimentos são irregulares, com frequência realizados com a ajuda de organizações criminosas”.
“A Igreja, na sua universalidade, mas também na sua realidade local, está chamada, portanto, a escrutar e interpretar, à luz do Evangelho, este sinal de nosso tempo”, indica a carta. Este discernimento, segundo os signatários da mensagem, deve inspirar “disposições e acções, programas e estruturas” nas Igrejas locais que incluam “a dimensão missionária, a comunhão entre as Igrejas de origem e as de acolhimento, e também a tarefa eclesial de tutela da pessoa humana, bem como da instituição familiar afectada pela migração”.
Na próxima sexta-feira será apresentada a mensagem do Papa para o 92º Dia Mundial do Refugiado, que a Igreja celebrará no próximo dia 15 de Janeiro de 2006. “Migrações, sinal dos tempos” é o tema escolhido por Bento XVI reflectindo a sua preocupação sobre esta matéria.
Redacção/ZenitPastoral das Migrações em mudança
A Instrução “Erga migrantes caritas Christi”, publicada há mais de um ano, foi preparado desde 2001 pelo Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes. O documento foi enviado às Comissões Episcopais de cada país que, por sua vez, comunicaram as respectivas observações ao Vaticano.
A Igreja Católica quis assim abordar as novas dimensões do actual fenómeno migratório, com especial atenção para os países orientais. O texto possui indicações precisas sobre a atenção a dar aos migrantes de outras religiões, especialmente nos países europeus.
Este trabalho foi precedido por um Inquérito feito as todas as Igrejas locais, tendo em vista a efectivação de um levantamento da situação (necessidades concretas das pessoas em mobilidade) dos migrantes e refugiados em cada país e adequar a acção da Igreja nas áreas da solidariedade, justiça, sensibilização, formação, coordenação, evangelização e divulgação da “visão” cristã sobre a dignidade e mobilidade humanas.
“As migrações internacionais são vistas e consideradas, com razão, como um importante componente estrutural da realidade social, económica e política do mundo contemporâneo”, assegura o documento.
“Nenhum Estado foge às consequências de algumas formas de migração que, com frequência, estão fortemente ligadas a factores negativos, como a mudança demográfica nos países de primeira industrialização, o aumento das desigualdades entre Norte e Sul no mundo, a existência de barreiras proteccionistas e a proliferação dos conflitos e das guerras civis”, acrescenta.
A Instrução pede de forma directa “uma nova ordem económica internacional para uma distribuição mais equitativa dos bens da terra, na visão da comunidade internacional como família de povos”. Nessa nova ordem mundial tem também lugar uma mudança nas relações entre religiões, que privilegie a visão ecuménica e inter-religiosa dos fluxos migratórios.
O Vaticano mostra-se consciente da crescente presença de muitos migrantes cristãos não-católicos e de migrantes de outras religiões, em particular da muçulmana, em terras tradicionalmente católicas e vice-versa. “Nas relações entre os cristãos e os membros de outras religiões, reveste-se de grande importância o princípio da reciprocidade, entendida não como uma atitude puramente reivindicativa, mas, sobretudo, como relação fundamentada sobre o respeito recíproco e sobre a justiça nos tratamentos jurídico-religiosos”, refere o documento.
Uma palavra especial é dada às relações entre Cristãos e Muçulmanos, particularmente importante na situação internacional, com a Santa Sé a convidar a “purificar a memória das incompreensões do passado, a cultivar os valores comuns e a esclarecer e respeitar a diversidade”.