O porta-voz do Vaticano, Joaquín Navarro-Valls, anunciou ontem ter aceite manter-se no cargo junto do novo Papa, Bento XVI, por considerar difícil rejeitar tal responsabilidade.
“Devo dizer que não é fácil dizer não a um Papa, qualquer que seja o seu nome”, declarou o espanhol ao diário Secolo d’Italia, o órgão oficial do partido Aliança Nacional.
“Há muito tempo, quando aceitei o cargo, pensava que duraria apenas alguns anos, o tempo de criar uma estrutura e de deixar depois o lugar a outro”, acrescentou o director da sala de imprensa da Santa Sé.
Navarro-Valls afirmou ainda ser “muito difícil fazer uma comparação” entre João Paulo II e o seu sucessor, Bento XVI, explicando que João Paulo II era mais filósofo e Ratzinger mais teólogo. “O que não quer dizer que o Papa Wojtyla não conhecesse a teologia ou que Ratzinger não conheça a história do pensamento clássico”, sublinhou.
Inquirido sobre se sempre tinha dito a verdade no seu trabalho, Navarro-Valls declarou: “invertamos a pergunta e digamos que nunca disse uma mentira. A verdade é qualquer coisa de complexo e cabe a cada um compreender, segundo a sua consciência, que parte da verdade compete ao grande público e que parte não lhe compete”.
O mundo habitou-se a olhar com mais atenção, nos últimos meses, para o homem que gere a informação no Vaticano. Joaquín Navarro-Valls, 68 anos, director da Sala de Imprensa da Santa Sé, já leva mais duas décadas de trabalho, como porta-voz e homem de confiança para uma série de temas eclesiais.
Psiquiatra de formação, Navarro-Valls apaixonou-se pelo jornalismo e foi correspondente em Roma do jornal ABC antes de ser presidente da Associação de Correspondentes Estrangeiros na Itália, cargo que ocupava quando conheceu João Paulo II, em 1978.
Quando se preparava para regressar à Espanha e dedicar-se ao ensino de medicina, Navarro-Valls recebeu o convite que mudaria sua vida: João Paulo II, que o tinha conhecido quando era Cardeal, durante um Sínodo, queria-o para tomar conta da Sala de Imprensa.
Desde que assumiu o cargo, Navarro-Valls modernizou significativamente o funcionamento da Sala de Imprensa e trouxe para sua actividade um nível de profissionalismo que foi reconhecido por todos os jornalistas do meio.
Esta revolução na forma de comunicar da Santa Sé passou por uma maior agilização na transmissão das notícias, o que acabou por originar uma presença mediática universal como a Igreja nunca tinha tido antes.
O actual director da Sala de Imprensa da Santa Sé remodelou o espaço reservado pelo Vaticano aos jornalistas, criou uma agência de notícias da Santa Sé (Vatican Information Service) e deu um grande impulso à página Web do Vaticano, hoje por hoje uma das que tem maior número de visitas no mundo.
Ao completar 20 anos de serviço como porta-voz do Vaticano, Navarro-Valls assinalou em entrevista à Rádio Vaticano que a sua função é “invulgar”, dado que muitas vezes representa a voz oficial do Vaticano.