Vaticano

Papa faz balanço de 2008 e recusa estatuto de «estrela»

Octávio Carmo
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Bento XVI lembra Jornadas Mundiais da Juventude e Sínodo dos Bispos, falando de um ano «cheio de acontecimentos»

Bento XVI apresentou esta Segunda-feira um balanço do ano de 2008, que considerou ter sido “rico de olhares retrospectivos sobre datas incisivas da história recente da Igreja”, bem como de “acontecimentos que trouxeram consigo sinais de orientação para o nosso caminho rumo ao futuro”. O Papa cumpriu a tradição natalícia de receber no Vaticano os membros da Cúria Romana, para troca de cumprimentos. No seu discurso, um dos mais importantes de cada ano, Bento XVI manifestou a sua satisfação pelo decorrer dos acontecimentos de 2008, dando uma importância particular às Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) de Sidney, no mês de Julho, e ao Sínodo dos Bispos que decorreu em Outubro. Sobre a grande celebração juvenil que decorreu na Austrália, o Papa disse que “várias análises em voga tendem a considerar estas jornadas como uma variante da moderna cultura juvenil, uma espécie de festival rock modificado em sentido eclesial, com o Papa como «star». Com ou sem fé, estes festivais seriam sempre a mesma coisa, no fundo, e assim se pensa ser possível remover a questão sobre Deus”. Bento XVI admitiu que há mesmo vozes católicas que vêm nestas iniciativas um “grande espectáculo, belo, mas de pouco significado para a questão sobre a fé e a presença do Evangelho no nosso tempo”. “Seriam momentos de uma êxtase festiva, que no fim de contas, contudo, deixariam tudo como dantes, sem influencia de forma profunda a vida”, indicou. Em resposta a estas críticas, o Papa disse que é fundamental analisar o tipo de alegria que se respirou em Sidney – citando mesmo Nietzsche a respeito deste tema -, onde mais de 200 mil jovens se reuniram sem perturbar a vida da cidade. A festa, aliás, surgiu após um “longo caminho exterior e interior”, tornando-se uma festa da fé em Cristo. “Na Austrália, não foi por acaso que a longa Via-Sacra ao longo da cidade se tornou o evento culminante das Jornadas. Ela resumia mais uma vez tudo o que aconteceu nos anos precedentes e indicou Aquele que reúne todos à sua volta, o Deus que nos ama até à cruz. Aqui também o Papa não é a «star» em volta da qual gira tudo”, disse. A estrela destas JMJ foi, para Bento XVI, o próprio Cristo e o seu Espírito, uma força criadora que gera comunhão, “amizades que encorajam um estilo de vida diferente”. Sínodo A profunda ligação entre a Bíblia e o Espírito Santo foi, segundo o Papa, um dos grandes méritos do Sínodo dos Bispos que, em Outubro passado, reuniu no Vaticano 253 padres sinodais dos cinco Continentes. “Percebemos que os escritos bíblicos foram redigidos em épocas determinadas e, portanto, constituem neste sentido um livro proveniente do passado, antes de mais. No entanto, vimos que a sua mensagem não ficou no passado nem pode ser fechada nele: Deus, no fundo, fala sempre ao presente”, explicou Bento XVI. Segundo o Papa, era importante “experimentar que na Igreja há um Pentecostes ainda hoje, isto é, que ela fala em muitas línguas e não só no sentido exterior de estar representada em todas as grandes línguas do mundo, mas também no sentido mais profundo”. “Na Igreja estão presentes os múltiplos modos de experiência de Deus e do mundo, a riqueza das culturas, e só assim surge a vastidão da existência humana e, a partir dela, a vastidão da Palavra de Deus”, acrescentou. Bento XVI destacou o facto de existir “uma multidão de línguas que ainda esperam pela Palavra de Deus contida na Bíblia” e os testemunhos de leigos de todas as partes do mundo que “não só vivem a Palavra de Deus, mas sofrem mesmo por causa dela”. O Papa considerou como “precioso” o discurso inédito de um Rabino, na aula sinodal, sobre as Escrituras de Israel, bem como a presença do Patriarca Ecuménico de Constantinopla (Ortodoxo), Bartolomeu I. “Esperemos agora que as experiências e as aquisições do Sínodo tenham uma influência eficaz na vida da Igreja: na relação pessoal com as Sagradas Escrituras, na sua interpretação na Liturgia e na catequese, bem como na pesquisa científica, para que a Bíblia não fique como uma Palavra do passado, mas a sua vitalidade e actualidade sejam lidas e discutidas na vastidão das dimensões dos seus significados”, concluiu. Ecologia Bento XVI falou ainda de uma “ecologia humana”, que respeite “a natureza do ser humano como homem e mulher”, frisando que a Igreja pede que “esta ordem da criação seja respeitada”, contra a imposição de uma ideia de “género” afastada desta ordem. “Aqui trata-se de facto da fé no Criador e da escuta da linguagem da criação, cujo desprezo significaria uma autodestruição do homem e, portanto, da própria obra de Deus”, alertou. O Papa chamou a atenção para a “nossa responsabilidade para com a Terra”, frisando que a mesma “não é uma propriedade nossa que podemos explorar segundo os nosso interesses e desejos”. “O facto de a Terra, o cosmos, espelharem o Espírito criador, significa que as suas estruturas racionais – que para lá da ordem matemática se tornam quase palpáveis na experimentação – trazem em si um orientação ética”, apontou. Bento XVI afirmou que “dado que a fé no Criado é uma parte essencial do Credo cristão, a Igreja não pode e não deve limitar-se a transmitir aos seus fiéis apenas e mensagem de salvação, ela tem uma responsabilidade em relação à criação”. “As florestas tropicais merecem a nossa protecção, certamente, mas não menos a merece o homem como criatura, no qual está inscrita uma mensagem que não contradiz a nossa liberdade, mas é sua condição”, indicou. Por isso, o Papa lembrou que “grandes teólogos da escolástica qualificaram o matrimónio, ou seja, o laço para a vida toda entre o homem e a mulher, como sacramento da criação, instituído pelo Criador e que Cristo – sem modificar a mensagem da criação – acolheu depois na história da sua aliança com os homens”. “Faz parte do anúncio que a Igreja deve oferecer o testemunho em favor do Espírito criador presente na natureza, no seu conjunto, de maneira especial na natureza do homem criado à imagem de Deus”, concluiu.


Bento XVI