A Santa Sé pediu nas Nações Unidas novos modelos de desenvolvimento, referindo que todo o sistema de solidariedade internacional deve ser reestruturado e manifestando a sua condenação a programas de controlo da população que negam a dignidade dos pobres, “em particular das mulheres”.
O arcebispo Celestino Migliore, observador permanente da Santa Sé na ONU, apresentou a sua proposta ao intervir na 59ª assembleia geral, destinada a “Consultas informais sobre o relatório do painel de alto nível sobre ameaças, desafios e mudança”. A intervenção foi publicada hoje pela sala de imprensa da Santa Sé.
“A minha delegação acredita firmemente que todo o sistema de solidariedade necessita de ser reestruturado: a ajuda oficial ao desenvolvimento deve ser aumentada e não só melhor utilizada”, disse o prelado, recordando aos países industrializados o seu compromisso de destinar 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) ao desenvolvimento.
“Antes de mais, as políticas para erradicar a pobreza devem continuar a concentrar-se não só em ‘o quê’ e ‘como’, mas em primeiro lugar em a ‘quem’ são dirigidas”, declarou.
A Santa Sé pediu que sejam promovidos “investimentos para apoiar os pobres, especialmente as mulheres, respeitando a sua vontade e evitando colocá-las em condições inaceitáveis para a liberdade dos que são assistidos”.
Referindo-se em particular a “certas maneiras inaceitáveis de controlo da população mundial”, o representante do Papa defendeu que “uma sábia e humana política de população respeitará a pessoa a que se deve servir, para a melhoria da humanidade”.
Para que o combate à pobreza tenha sucesso, disse D. Migliore, é necessário que se tenha “uma ideia clara de quem são os pobres, seguida por uma assistência prática, directa e pessoal através de políticas centradas na pessoa”.
“Muitos especialistas concordam em dizer que a pobreza extrema e a fome derivam em grande parte da desigualdade na distribuição do rendimento, por um lado, e por outro do excessivo consumo”, denunciou.
O Núncio na ONU criticou ainda os actuais modelos de desenvolvimento, frisando que “as soluções técnicas que estes modelos apontam, em vez de estimular o crescimento, provocaram em certas ocasiões o aumento da pobreza e da desigualdade”.
“A Santa Sé alinha-se com as delegações que apoiam uma política social que inclua a justiça distribuída. Estas políticas devem ser parte integrante do debate sobre o desenvolvimento, de maneira que se convertam no critério básico para medir a qualidade e o avanço do desenvolvimento”, acrescentou.
Em conclusão, o Arcebispo Migliore apontou uma série de condições para o pleno cumprimento dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, que passam pelo combate à corrupção, uma reforma comercial e financeira “para que os mercados trabalhem a favor dos países em vias de desenvolvimento”, o cumprimento das promessas de destinar 0,7% do PIB para o desenvolvimento e o perdão da dívida externa de países pobres.