Bispo de Cartum espera que o encontro de Lisboa não se limite ao debate de questões económicas
O Bispo auxiliar de Cartum, D. Daniel Adwok, defende que a questão dos Direitos Humanos em África deve estar na agenda da cimeira UE-África, a realizar este fim-de-semana em Lisboa.
Em declarações ao Programa ECCLESIA, este responsável sudanês falou na necessidade de não discutir apenas um "desenvolvimento mecânico" para o continente africano, centrado em aspectos económicos, mas propor um desenvolvimento integral e humano.
"A minha esperança é que se olhe, em primeiro lugar, para o desenvolvimento de toda a pessoa, para os Direitos Humanos e a dignidade humana em todos os países e, como é lógico, no meu país, o Sudão", referiu.
D. Adwok criticou duramente o governo sudanês e espera que o mesmo seja questionado em relação ao que se passa no Sudão, em especial na região do Darfur e no Sul, palcos de guerra no país.
"É preciso saber se as partes estão realmente a negociar, porque seria um desperdício de energias falar de desenvolvimento económico para o Sudão enquanto o seu povo geme na opressão, gritando por liberdade e segurança", apontou.
Neste contexto, questionou como pode ser possível "desenvolver realmente um país sem o seu povo". Por isso, o desenvolvimento proposto ao Sudão deve ser "um desenvolvimento com um rosto humano".
"Primeiro, a paz e a segurança devem ser garantidas, também para o Sul agora que o acordo de paz enfrenta dificuldades de aplicação", afirmou.
Ordenado Bispo auxiliar de Cartum em Fevereiro de 1993, D. Daniel Adwok iniciou Sexta-feira uma visita de 10 dias a Portugal a convite da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), organização dependente da Santa Sé e que integra a plataforma portuguesa por Darfur.
Ao longo da sua estadia em Portugal, o Bispo sudanês passa por Lisboa, Porto e Fátima, onde presidirá a diversas celebrações litúrgicas e manterá encontros com responsáveis da Igreja em Portugal. Marca ainda presença em várias conferências sobre a situação da Igreja no Sudão e no lançamento de dois livros.
O Sudão é hoje o maior país da África e está em guerra civil há várias décadas. O conflito entre o governo islâmico e guerrilheiros não-muçulmanos, no Sul e no Oeste, revela as realidades culturais opostas da Nação.
O genocídio contra a população negra da região ocidental do Darfur é, neste momento, a maior crise humana da actualidade. Assassinatos, violações e tortura marcam o dia-a-dia dos Fur, tribo sedentária dominante no sudoeste sudanês. Tropas de Cartum, voluntários da Líbia e do Irão foram mobilizados em 2003 para o Darfur (em árabe, "terra dos Fur"), dando início ao massacre: pelo menos 200 mil mortos, havendo mesmo quem fale em meio milhão de vítimas.
As povoações estão completamente desertas, com as populações a amontoarem-se nos acampamentos, onde trabalham cerca de 14 mil voluntários de organizações internacionais.
Apesar da protecção da ONU estes acampamentos são atacados pelos mercenários árabes ao serviço do governo sudanês. Registam-se constantemente casos de assassinatos e violações e calcula-se que pelo menos 2,5 milhões tenham sido obrigadas a deixar as suas casas e a procurar refúgio em campos onde estão totalmente dependentes das Nações Unidas e organizações humanitárias.
Todos os dias morrem pessoas, a maior parte das quais crianças. O conflito internacionalizou-se, passou as fronteiras do Sudão, para o Chade e República Centro-Africana, onde as populações negras do Darfur procuravam fugir ao conflito.