Na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2016, o Papa Francisco destaca três acontecimentos de 2015 que permitem “conservar as razões da esperança”: a Cimeira da ONU sobre as alterações climáticas (COP 21), a Cimeira de Adis-Abeba, e a Agenda 2030 das Nações Unidas. Parecendo quase marginais, creio todavia que estas referências não são gratuitas e evocam valores e diretrizes fundamentais para
a construção da paz. Propunha que nesta conversa nos detivéssemos sobretudo nelas. Que valores e diretrizes podemos ler no recente acordo de Paris sobre as “alterações climáticas”?
É muito significativo que o Papa Francisco (na senda do Concílio Vaticano II, nos cinquenta anos da sua conclusão, e do Papa Paulo VI, que o encerrou com essa tónica) acentue a dimensão esperança na sua Mensagem para o dia Mundial da Paz. O ponto mais relevante do Acordo de Paris corresponde à obrigação de participação de todas as nações no combate às mudanças climáticas. O facto de terem sido 195 países membros da Convenção do Clima da ONU e a União Europeia a ratificarem o documento parece-me uma viragem histórica, já que sobre estes temas do clima (nos fóruns políticos, ainda mais do que nos científicos) se estava sempre muito longe do consenso. Trata-se, pois, de um
compromisso que explicita a co-responsabilidade do vivermos todos sobre a terra: viver traduz-se sempre no conviver.
O objetivo de longo prazo do acordo é manter o aquecimento global “muito abaixo de 2ºC”, já que esse é o ponto em que há consenso científico como exigência para que o nosso planeta tenha futuro. Subtraímo-nos, deste modo, à elevação do nível do mar, a outros fenómenos climáticos
extremos, como secas e tempestades, bem como à falta de água potável e de alimentos para as próximas gerações.
A sua pergunta é sobre os valores. Eu diria que o valor defendido neste acordo é o valor da ‘vida’. Como sabemos, não sendo um valor absoluto, a vida é um valor fundamental, isto é, fora do qual nenhum outro valor é possível ser promovido. Mas há outro valor posto aqui particularmente em evidência que é o da ‘solidariedade’: «a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum, ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos», como o Papa Francisco indica no n.5 desta Mensagem, citando a Sollicitudo rei socialis, de S. João Paulo II, no seu n.38. A referência ao princípio do ‘bem comum’ é implicitamente complementada pela evocação de outro princípio: o do ‘destino universal dos bens da terra’.
Que palavra original pode a Igreja trazer às questões da ecologia?
Não por acaso a publicação da encíclica Laudato si’ decorreu meses antes desta Cimeira. Em tempo útil para poder ser conhecida a sua mensagem e os seus apelos serem levados em conta. Depois do primeiro capítulo, que constitui um diagnóstico da situação – «O que está
a acontecer à nossa casa» –, o mais original da reflexão eclesial vem expresso nos capítulos seguintes, correspondentes ao “julgar” do método indutivo utilizado: «O Evangelho da Criação», «A raiz humana da crise ecológica» e «Uma ecologia integral». Creio que a compreensão do mundo a partir da teologia da Criação (e também da da Redenção) é o que de mais próprio podemos levar ao diálogo interdisciplinar sobre
estas matérias. Sempre atentos ao que outros, a partir de outras tradições, são portadores. Também esta atenção e este acolhimento hão-de ser considerados como ‘original’ por parte da Igreja que somos.
O que está por detrás da referência do Papa Francisco, numa Mensagem sobre a Paz, à Cimeira de Adis-Abeba (que afinal é um acontecimento que se repete regularmente)?
O Papa, ao referir-se à Cimeira que reúne os Chefes de Estados dos países africanos como um sinal de esperança, convida-nos a olhar para as periferias e a reconhecer os pobres como protagonistas da nossa História. Tanto mais que esta Cimeira se destinou a estudar estratégias para a obtenção de «fundos destinados ao desenvolvimento sustentável do mundo» (n.2). As palavras do Papa Francisco, como as de todos, devem ser complementadas, ilustradas – e, no que diz respeito a este Papa, de que maneira! – pelos seus gestos. Parece-me que a sua última viagem ao coração da África, realizada apesar de tantos aconselhamentos contrários, é o gesto que acompanha esta referência.
Agenda 2030. O que é? Em que é que ela toca os grandes valores cristãos?
A Agenda 2030 traduz-se em Objectivos para o Desenvolvimento Sustentável. De novo esta expressão – “desenvolvimento sustentável” –, tão cara à reflexão ecologista em geral, à tradição do pensamento social cristão, em especial desde a Populorum progressio (1967), do Beato Paulo VI, e ao Papa Francisco em particular.
A Agenda 2030 apresenta umavisão abrangente, onde se estabelece um conjunto de objectivos que pretendem alcançar uma erradicação global da pobreza, de forma sustentável. Mais uma vez, como sublinhou a direcção da Cáritas Portuguesa em 16 de Outubro passado, ao assinalar o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, «o destaque vai para o facto de as suas metas serem apontadas para todos os países e não mais uma agenda exclusiva dos Países em Desenvolvimento. Pretende-se assim, reforçar uma responsabilidade e solidariedade que devem ser universais».
Como no Acordo de Paris, de novo aqui: todos os países. Todos responsáveis por todos. Podemos acreditar na vontade política para cumprir a
nível mundial esta Agenda? Não podemos não acreditar! Mas é importante que saibamos participar, como sociedade civil, na implementação das políticas que possam levar a que a Agenda 2030 não se desvaneça como uma miragem. Várias iniciativas têm sido apontadas, nomeadamente na rede Cáritas: que o desenvolvimento sustentável seja, de facto, uma prioridade transversal e determinante de todas as políticas governamentais; que se encorajem as lideranças políticas, ao mais alto nível, a elaborar uma estratégia e um elenco de medidas concretas e coerentes, com mecanismos de coordenação e de avaliação sistemáticos e eficazes; que nos afastemos progressivamente da doutrina do crescimento económico a todo o custo e apoiemos trabalhos em curso em matéria de índices de felicidade na vida concreta que substituam o PIB; que apoiemos, quer com a reflexão, quer com ensaios práticos, vias de transição do modelo económico que conhecemos
– «Esta economia mata» (Evangelii gaudium, 52) – para uma economia que faça viver: mais diversificada e socialmente responsável.
O Papa também refere os “actos terroristas” do passado recente e volta a falar, pelo menos pela terceira vez, numa “guerra mundial por etapas”. Para além da esperança, há também razões para o medo?
O medo é mau conselheiro... Mas é sensato perceber que as tensões existentes no tempo presente têm sido vividas com uma violência cada vez mais preocupante. O Papa conhece (bem melhor do que eu imagino) a complexidade da situação. No que me diz respeito, compreendo o seu alerta como um convite à conversão, a uma mudança radical: a construção da paz não pode ser adiada.
Que ideia ou ideias destacaria como “coração da Mensagem do Dia Mundial da Paz 2016”?
Intitulada «Vence a indiferença e conquista a paz», a Mensagem propõe um combate a todas as formas de indiferença, já que o Papa Francisco considera que paz é ameaçada pela globalização da indiferença. Ora, neste Ano da Misericórdia, é essa conversão que propõe: passar da indiferença à misericórdia, através de uma cultura de solidariedade.
Por último, o que é que os “organismos oficiais” da Igreja, como por exemplo a Comissão Nacional Justiça e Paz, de que o Pe. José Manuel é assistente religioso, podem fazer, no pensar e no agir em campo social, para interferir nos destinos do nosso mundo, nomeadamente no campo da paz?
Diria que, por um lado, podem intervir sob o ponto de vista da divulgação do pensamento social da Igreja, geralmente pouco ou mal conhecido. A propósito desta Mensagem, por exemplo, só o Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz deu uma entrevista à Agência Ecclesia, que foi
transcrita no semanário digital e transmitida no programa 70X7 de domingo 3 de Janeiro, escreveu um artigo para o sítio da Pastoral Juvenil nacional e participou numa conversa na secção portuguesa da Rádio Vaticano.
A reflexão não pode, contudo, permanecer ao nível mais geral e abstracto: espera-se que os “organismos oficiais” da Igreja (a Comissão Nacional e as Comissões Diocesanas Justiça e Paz, a Cáritas Portuguesa e as Cáritas Diocesanas,...) sejam capazes de continuar a ler a nossa realidade concreta, para que, à luz do Evangelho, saibam contribuir, em conjunto com todas as pessoas de boa vontade, no sentido de
que as transformações sociais, algumas delas urgentes, possam ser realizadas, de forma a construirmos uma sociedade mais justa e mais fraterna.





