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A EUROPA E O CRIME ORGANIZADO - Ação Concertada 2026 da Justiça e Paz Europa

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A EUROPA E O CRIME ORGANIZADO

Enfrentar o Desafio em Conjunto - Combater o Crime Organizado em Conjunto

Ação Concertada 2026 da Justiça e Paz Europa

A Europa enfrenta atualmente muitas ameaças à sua segurança, integridade e coesão, tanto internas como externas. Na sequência destas ameaças, que são visíveis para todos, existe um perigo parcialmente oculto que está a operar e a crescer: o crime organizado.

A perceção social e política da ameaça potencial representada pelo crime organizado varia muito na Europa. Enquanto em alguns países o problema é quase óbvio e existem inúmeras abordagens governamentais e sociais para o combater, noutros países a sensibilização ainda não foi suficientemente desenvolvida. Muitas vezes, pode prevalecer a sensação de que o crime organizado é um problema alheio. No entanto, trata-se de um grave erro de avaliação. O crime organizado é um problema global e, portanto, também um problema europeu (crescente), e nenhum Estado pode eximir-se da tarefa de enfrentar os desafios que ele representa — especialmente porque uma das características marcantes dessa forma de crime é que ele opera transnacionalmente.

Uma perspetiva cristã leva-nos a ver o crime organizado não apenas como um desafio político e social, mas também como uma manifestação do pecado estrutural. A Escritura lembra-nos que «o amor ao dinheiro é a raiz de todo o mal» (1 Tim 6, 10). A Igreja é, portanto, chamada a testemunhar que o combate ao crime organizado é uma questão de conversão, justiça e solidariedade. Esta perspetiva molda a análise e as recomendações que se seguem. Por mais que o combate ao crime organizado exija um esforço conjunto de toda a família de Estados europeus, ele não tem apenas uma face. Existem diferenças consideráveis nas suas características, uma vez que os intervenientes no crime organizado sabem explorar as diferentes circunstâncias das respetivas áreas de atividade, ou seja, nacionais e regionais, rurais e urbanas, intra e extra-fronteiriças. Isto também explica a amplitude e profundidade da sua penetração nas sociedades em causa. Esta mistura torna muito difícil conter e combater o crime organizado, porque as atividades criminosas não se realizam apenas no chamado «submundo». Pelo contrário, também estão envolvidos perpetradores do centro da sociedade e das classes altas. O crime organizado é frequentemente caracterizado pelo facto de a fronteira entre as esferas ilegal e legal, entre o «submundo» e o «mundo superior», ser esbatida pela criação de dependências, ou mesmo pela formação de alianças, entre as duas áreas. Esta interdependência conduz frequentemente à situação paradoxal em que, por um lado, muitas sociedades sofrem com as atividades do crime organizado e, por outro, os intervenientes no crime organizado conseguem obter um certo grau de tolerância, aprovação ou apoio social, explorando habilmente estas alianças, apresentando-se como benfeitores sociais ou assumindo funções próprias dos Estados, como as de segurança, proteção e ordem pública.

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MENSAGEM DO PAPA LEÃO XIV PARA A QUARESMA 2026

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MENSAGEM DO PAPA LEÃO XIV PARA A QUARESMA 2026

 Escutar e jejuar.
Quaresma como tempo de conversão

Queridos irmãos e irmãs!

A Quaresma é o tempo em que a Igreja, com solicitude maternal, nos convida a recolocar o mistério de Deus no centro da nossa vida, para que a nossa fé ganhe novo impulso e o coração não se perca entre as inquietações e as distrações do quotidiano.

Todo o caminho de conversão começa quando nos deixamos alcançar pela Palavra e a acolhemos com docilidade de espírito. Existe, portanto, um vínculo entre o dom da Palavra de Deus, a hospitalidade que lhe oferecemos e a transformação que ela realiza. Por isso, o itinerário quaresmal torna-se uma ocasião propícia para dar ouvidos à voz do Senhor e renovar a decisão de seguir Cristo, percorrendo com Ele o caminho que sobe a Jerusalém, onde se realiza o mistério da sua paixão, morte e ressurreição.

Escutar
Este ano gostaria de chamar a atenção, em primeiro lugar, para a importância de dar lugar à Palavra através da escuta, pois a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro.

O próprio Deus, revelando-se a Moisés na sarça ardente, mostra que a escuta é uma característica distintiva do seu ser: «Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egipto, e ouvi o seu clamor» (Ex 3, 7). Escutar o clamor dos oprimidos é o início de uma história de libertação, na qual o Senhor envolve também Moisés, enviando-o a abrir um caminho de salvação para os seus filhos reduzidos à escravidão.

É um Deus que nos envolve e, hoje, também vem até nós com os pensamentos que fazem vibrar o seu coração. Por isso, escutar a Palavra na liturgia educa-nos para uma escuta mais verdadeira da realidade: entre as muitas vozes que passam pela nossa vida pessoal e social, as Sagradas Escrituras tornam-nos capazes de reconhecer aquela que surge do sofrimento e da injustiça, para que não fique sem resposta. Entrar nesta disposição interior de recetividade significa deixar-se instruir hoje por Deus para escutar como Ele, até reconhecer que «a condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos e, sobretudo, a Igreja».[1]

Jejuar
Se a Quaresma é um tempo de escuta, o jejum constitui uma prática concreta que nos predispõe a acolher a Palavra de Deus. Na verdade, a abstinência de alimentos é um exercício ascético muito antigo e insubstituível no caminho da conversão. Precisamente porque implica o corpo, torna mais evidente aquilo de que temos “fome” e o que consideramos essencial para o nosso sustento. Portanto, é útil para discernir e ordenar os “apetites”, para manter vigilante a fome e a sede de justiça, subtraindo-a à resignação e instruindo-a a fim de se tornar oração e responsabilidade para com o próximo.

Com grande sensibilidade espiritual, Santo Agostinho deixa transparecer a tensão entre o tempo presente e a realização futura que atravessa esta salvaguarda do coração, quando observa que: «Ao longo da vida terrena, cabe aos homens ter fome e sede de justiça, mas ser saciados pertence à outra vida. Os anjos saciam-se deste pão, deste alimento. Os homens, pelo contrário, sentem fome dele, estão inclinados ao seu desejo. Esta inclinação ao desejo dilata a alma, aumentando a sua capacidade».[2] Compreendido neste sentido, o jejum permite-nos não só disciplinar o desejo, purificá-lo e torná-lo mais livre, mas também ampliá-lo, de tal modo que se volte para Deus e se oriente para agir no bem.

No entanto, para que o jejum conserve a sua autenticidade evangélica e evite a tentação de envaidecer o coração, deve ser sempre vivido com fé e humildade. Ele exige um permanente enraizar-se na comunhão com o Senhor, porque «não jejua verdadeiramente quem não sabe alimentar-se da Palavra de Deus».[3] Como sinal visível do nosso compromisso interior de, com o apoio da graça, nos afastarmos do pecado e do mal, o jejum deve incluir também outras formas de privação destinadas a fazer-nos assumir um estilo de vida mais sóbrio, pois «só a austeridade torna forte e autêntica a vida cristã».[4]

Por isso, gostaria de vos convidar a uma forma de abstinência muito concreta e frequentemente pouco apreciada, ou seja, a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo. Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias. Em vez disso, esforcemo-nos por aprender a medir as palavras e a cultivar a gentileza: na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social, nas comunidades cristãs. Assim, muitas palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz.

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CONTRA A APROPRIAÇÃO POLÍTICA DOS VALORES CRISTÃOS - Nota da CNJP

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Contra a apropriação política dos valores cristãos 

Nota da Comissão Nacional Justiça e Paz 

Considerando o atual momento em Portugal, a Comissão Nacional Justiça e Paz alerta para os riscos da instrumentalização dos valores cristãos para fins políticos. 

Esta instrumentalização não é inédita. Tem-se assistido, nos últimos tempos, à colagem de partidos e movimentos aos valores das comunidades cristãs, através do aproveitamento de causas como a defesa do direito à vida intrauterina ou da defesa da exposição do presépio em espaços públicos, promovendo simultaneamente a discriminação e discursos de ódio. Esta estratégia visa captar eleitores que priorizam esses temas e que, por essa razão, tendem a relativizar outras posições políticas, mesmo quando estas contradigam as verdades do Evangelho. 

As Igrejas cristãs e os seus fiéis devem tomar consciência do seu importante papel numa denúncia corajosa e num afastamento claro de tudo aquilo que perverte o valor fundamental de amor ao próximo. 

A política, enquanto forma mais elevada da caridade e com vista à construção do bem comum, não deve promover ódio nem divisão.  Nem mesmo a luta a favor da vida ou a defesa da identidade cristã podem implicar, para um cristão, prescindir das verdades do Evangelho e da doutrina social que dele brota. Uma vez que a fé cristã se funda na dignidade inviolável da pessoa e na fraternidade universal, a defesa dessas causas não pode estar dissociada dos ideais de solidariedade, verdade, justiça e paz, sem ficar corrompida. 

É neste horizonte que deve situar-se o compromisso cristão na vida pública. É imperioso manter espírito crítico e rejeitar políticas que destruam os laços sociais e gerem injustiças. A Comissão exorta a um compromisso sério e empenhado com os valores democráticos, a defesa intransigente dos direitos humanos, a proteção dos mais pobres, a coesão social, a cooperação entre povos e políticas orientadas para o desenvolvimento integral de todos. É nisso que deve assentar a verdadeira radicalidade daqueles que estão comprometidos com o Evangelho. 

Lisboa, 27 de janeiro de 2026 

A Comissão Nacional Justiça e Paz