Comissão Nacional Justiça e Paz

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A IMPORTÂNCIA DEMOCRÁTICA DA ESCOLHA PRESIDENCIAL - Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga

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A importância democrática da escolha presidencial
Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga

3 de fevereiro de 2026

A democracia tem sido objeto de uma profunda reflexão dos Papas mais recentes. “Uma democracia sem valores converte-se facilmente num totalitarismo aberto ou dissimulado, como a história demonstra”, escreveu o Papa João Paulo II na encíclica Centesimus Annus (1991). “Vendo que todo o tipo de intolerância fundamentalista danifica as relações entre pessoas, grupos e povos, comprometamo-nos a viver e ensinar o valor do respeito, o amor capaz de aceitar as várias diferenças, a prioridade da dignidade de todo o ser humano sobre quaisquer ideias, sentimentos, atividades e até pecados que possa ter”, instou o Papa Francisco na encíclica Fratelli Tutti (2020). Nela se pode, a seguir, ler que “enquanto os fanatismos, as lógicas fechadas e a fragmentação social e cultural proliferam na sociedade atual, um bom político dá o primeiro passo para que se ouçam as diferentes vozes”.

Para o Papa Francisco, se é certo “que as diferenças geram conflitos”, também é verdade que “a uniformidade gera asfixia e neutraliza-nos culturalmente”. Daí o apelo” “Não nos resignemos a viver fechados num fragmento da realidade”.

A participação cívica inspirada por uma consciência cristã não pode, pois, ceder à tentação do ressentimento, ainda que revestido de virtude, sucumbindo a princípios dissimulados, não olhando a meios para atingir os fins. Do mesmo modo, não pode ceder à ideia de que o bem comum se constrói à custa da negação da dignidade humana ou do desprezo da moral ditada pelo Evangelho. Ainda há dias, a Comissão Nacional Justiça e Paz se manifestou Contra a apropriação política dos valores cristãos (27 de janeiro de 2026).

Jesus Cristo, que seguimos, ensina-nos que “é pelos frutos que se conhece a árvore” e que a justiça que ignora a misericórdia acaba sempre por se tornar estéril. Num tempo de escolhas coletivas decisivas, talvez o maior desafio seja distinguir entre a firmeza que protege a dignidade de todos e a dureza que apenas promete ordem, esquecendo que nenhuma comunidade se salva afastando-se dos valores e causas que a fundam.

O espaço público tem vindo a ser cada vez mais assolado pelo ruído, pela simplificação e pelo apelo ao medo, pelo endeusamento de políticas discriminatórias e de radicalidade identitária. Daí ser crucial recordar que a tradição cristã nunca se conformou com soluções fáceis, nem com discursos que dividem o mundo entre os “bons” e “maus”, “puros” e “impuros”, proteção ou intimidação.

Porque a vida coletiva não se constrói sobre a exaltação da força, mas sobre a dignidade e sacralidade existencial de cada pessoa; não sobre a exclusão, mas sobre a responsabilidade, a urgência na busca de consenso e na justa igualdade para todos; não sobre a exploração das fragilidades coletivas, mas sobre a exigência ética de cuidar do outro, sobretudo quando ele é incómodo.

Seguindo o conselho do Papa João XXIII, apresentado na encíclica Mater et Magistra (1961) precisamos de edificar uma comunidade “em que todos os membros serão sujeitos conscientes dos próprios deveres e dos próprios direitos, e trabalharão em plano de igualdade, pela consecução do bem comum universal”.
A nossa fé, quando levada a sério, é tudo menos reativa: é profundamente crítica, exigente e avessa a qualquer instrumentalização do sofrimento ou da insegurança. E se, como nos recordou Jules Michelet, “a História narra a luta da liberdade contra a fatalidade”, a contribuição ativa e consciente dos cristãos é crucial no impacto sobre as decisões políticas de modo a favorecer a responsabilidade de todos para promover mais justiça e progresso social, no caminho da solidariedade como a verdadeira “virtude social”, com mais e melhor cidadania complementada por uma política de exemplo e modelo de moderação.

Por tudo isto, a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga considera um inalienável dever cívico e decisiva consequência da fé cristã que todos votem no próximo domingo, na segunda volta das eleições presidenciais. No complexo e perigoso mundo de hoje, estas eleições são assaz relevantes para o destino da nossa Democracia, do nosso Estado de Direito, do nosso Estado Social, da visão de sociedade que ambicionamos para Portugal.

 

Nota da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga sobre a guerra em Gaza

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Nota da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga sobre a guerra em Gaza

Sabemos bem que não temos uma voz audível no plano internacional e bem sabemos, igualmente, que abundam as vozes audíveis que não têm sido devidamente escutadas. Mesmo assim, não podemos deixar de nos associar a todos os que, em todo o mundo, estão a gritar incansavelmente pela paz no Médio Oriente.

Afirmando acompanhar “com grande preocupação a gravíssima situação humanitária em Gaza, onde a população civil é esmagada pela fome e continua a ser exposta à violência e à morte”, Leão XIV renovou, no dia 27 de Julho, após a recitação do Angelus, um “apelo sincero ao cessar-fogo, à libertação dos reféns e ao respeito integral pelo direito humanitário”. Impõe-se que tal apelo seja respeitado.

É preciso parar a espiral de violência. Uma violência que se está a manifestar contra gente frágil e indefesa. Em consequência da acção do exército israelita em Gaza – empreendida após os ataques terroristas do Hamas que, a 7 de Outubro de 2023, no sul de Israel, causaram cerca de mil mortos, incluindo crianças e jovens, e a captura de duas centenas de reféns – morreram, até ao dia 15 de Julho, 18.500 crianças e jovens palestinos, cujos nomes (e, em um ou outro caso, fotografias) o diário The Washinton Post publicou no dia 30 de Julho.

É uma lista impressionante, assaz eloquente sobre o genocídio em curso, que dizimou 953 crianças antes de fazerem um ano, 943 com um ano, 972 com dois anos, 899 com três anos, 868 com quatro anos, 985 com cinco anos, 924 com seis anos (e a terrível contabilidade de crianças e jovens mortos por idade estende-se até aos 17 anos).

Mesmo quem, em vez de ler devagar, percorrer com um olhar apressado a extensa lista com o nome destas crianças assassinadas premeditadamente não deixará de sentir uma dor pungente que impõe o dever de um grito: “Basta!”.

Como escreveu Jorge de Sena no memorável poema “Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya”:
“Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém / Vale mais do que uma vida ou a alegria de tê-la.”

A Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga une-se a todos os que, em todo o mundo, apelam ao governo de Israel para que pare esta mortandade e cesse este uso da fome como arma de guerra.

Agosto de 2025

 

As estradas não têm de ser campos de batalha- Texto da Comissão Justiça e Paz de Braga

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As estradas não têm de ser campos de batalha

As notícias sobre acidentes de viação com vítimas mortais ocorridos nas estradas nacionais – e, particularmente, nas da nossa arquidiocese – têm sido excessivamente frequentes. A quantidade de mortos em consequência de acidentes de motas bastaria, por si só, para impressionar. Conforme foi divulgado esta quinta-feira, dia 17, na área tutelada pela GNR registaram-se, desde Janeiro até 15 de Julho, mais de quatro mil acidentes com motos, que causaram a morte de 67 pessoas e feriram gravemente 333, sendo jovens muitas das vítimas. A situação, que a todos diz respeito, é muito inquietante.

Um relatório da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária [1] indica que, de Janeiro a Outubro de 2024, no continente e nas regiões autónomas, os acidentes de viação provocaram 405 vítimas mortais, 2.304 feridos graves e 37.081 feridos leves. O número de vítimas mortais dentro das localidades foi superior ao apurado fora delas. No distrito de Braga, houve um aumento da sinistralidade grave nos primeiros dez meses do ano passado, tendo os acidentes rodoviários provocado mais mortos (+16,1%) e mais feridos graves (+9,6%) do que no período homólogo do ano anterior.

Em meados de Julho deste ano, as consequências mais graves da sinistralidade rodoviária no distrito de Braga traduziam-se já em 19 mortos e 89 feridos graves.

Perante este drama que quotidianamente ocorre nas estradas portuguesas, não é possível desviar o olhar, considerando que esta tragédia é um fruto do azar. Não é o destino que dita a maioria ou, pelo menos, uma grande parte dos acidentes. Eles são, de facto, muitas vezes evitáveis.

“A denúncia de situações perigosas, como as que são causadas pelo trânsito, faz parte da missão da Igreja, ou seja, é realização da sua missão profética”, dizia há um bom par de anos o Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes [2]. Olhando para o preocupante número de acidentes, o organismo que mais tarde integraria o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral afirmava ser “necessário fazer a denúncia da periculosidade de certas competições automobilísticas e das corridas ilegais pelas estradas, que constituem um grave risco”.

Num documento dirigido a todos os que andam na estrada (na altura, as trotinetas não existiam, não representando o acrescido perigo com que hoje nos confrontamos), observava-se algo bastante comum: mesmo sendo bastante usual indicar, como causa de um acidente, as condições de pavimentação da estrada, um problema mecânico ou alguma adversidade meteorológica, “é necessário sublinhar que uma grandíssima parte dos acidentes automobilísticos são determinados por leviandades graves e gratuitas – quando não se trata mesmo de estupidez e arrogância no comportamento do motorista ou do peão – e portanto do factor humano”.

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Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga “O coração da política é a participação”

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Legislativas 2025 II

“O coração da política é a participação”

Quando, 50 anos depois das primeiras eleições em liberdade, Portugal está prestes a eleger uma nova Assembleia da República, ecoam ainda, vibrantes, os encorajamentos do Papa Francisco à participação e ao aprofundamento da democracia. Os incitamentos foram constantes, assinalando que importa a participação de todos naquilo que a todos diz respeito. “O coração da política é a participação”, afirmou Francisco, por ocasião da 50.ª Semana Social, no dia 7 de Julho do ano passado em Trieste, Itália.

Ao reflectir sobre as semelhanças que se poderiam encontrar entre uma democracia e “um coração curado”, o Papa exemplificou, chamando a atenção para diversas realidades: para “quem, numa actividade económica, criou espaço para pessoas com deficiência”; para os “quatro trabalhadores que renunciaram a um direito seu para impedir que outros fossem despedidos”; para as “comunidades energéticas renováveis que promovem a ecologia integral, cuidando inclusive das famílias em pobreza energética”; para “os administradores que favorecem a natalidade, o trabalho, a escola, os serviços educacionais, as casas acessíveis, a mobilidade para todos, a integração dos migrantes”. Tudo isto decorre de uma política participativa. “São estas as coisas que a participação faz, um cuidar de tudo”. Não é “beneficência”, é cuidar de tudo.

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Por um voto pelo espírito europeu

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Eleições PE 2024

Por um voto pelo espírito europeu 

Nota da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga sobre as eleições para o Parlamento Europeu

Quando, no próximo dia 9 de Junho, forem chamados a votar para eleger os seus representantes no Parlamento Europeu, os cidadãos têm uma União Europeia profundamente alterada por uma crise mundial de saúde pública, a pandemia de Covid-19; pela saída da União Europeia de um importante país-membro, o Reino Unido; e por ter às portas uma guerra, resultante da invasão da Ucrânia pela Rússia. O novo panorama, conjugado com outros problemas, tem tido consequências económicas, políticas e sociais que se têm feito severamente sentir.

Concebida pelos seus fundadores fundamentalmente como um espaço de paz e de prosperidade, em que o confronto político proporcionava um benefício democrático, a União Europeia vive, hoje, um momento de polarização amiúde com contornos de enorme violência. Os populistas têm aumentado o número de seguidores, conseguindo, em muitos sítios, disseminar o racismo e a xenofobia, a discórdia e o medo.

Mas a Europa é também, em várias das suas latitudes, um profícuo laboratório de concórdia, um modelo de civismo cosmopolita. A Europa, como afirmou, há dez anos, o Papa Francisco, num discurso ao Parlamento Europeu, deve alimentar uma “esperança assente na confiança em que as dificuldades se podem revelar, fortemente, promotoras de unidade, para vencer todos os medos que a Europa – juntamente com o mundo inteiro – está a atravessar”. Uma esperança assente “no Senhor que transforma o mal em bem e a morte em vida”.

A União Europeia, é sabido, tem entre os seus fundadores políticos cristãos e tem sido vivamente incentivada por sucessivos Papas.

A Europa, como “comunidade de povos”, deve “participar activamente na promoção e realização duma globalização ‘na’ solidariedade. Esta supõe, como sua condição, uma espécie de globalização ‘da’ solidariedade” com valores e direitos humanos fundamentais, disse João Paulo II na Exortação Apostólica Ecclesia in Europa.

A “defesa da qualidade da vida das pessoas” requer que a edificação dessa Europa, “vista como comunidade de povos e de pessoas, uma comunidade solidária na esperança”, salvaguarde a dignidade humana, não a sujeitando às leis do mercado.

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